segunda-feira, novembro 14, 2016

O medo da Democracia

O terror que provocou a vitória de Trump tem levado muita gente a imaginar as piores consequências das loucuras futuras do próximo presidente norte-americano.
Correndo o risco (infundado) de vir a ser considerado um adepto das politicas xenófobas de Trump, eu sublinho que o que me preocupa mais são o que dizem aqueles que se apresentam como críticos do oligarca americano. 

Dizer que "as democracias representativas estão a ser minadas pelas redes sociais que destroem qualquer ideia de racionalidade. São elas que marcam o ritmo, definem os assuntos, condicionam os meios de comunicação tradicionais", como defendeu Teresa de Sousa no seu artigo de opinião do Publico além de perigoso é incoerente, vindo da parte de quem defendeu o papel dessas redes sociais nas revoluções da primavera árabe ou ucraniana. 

Mas o mais grave é que esta afirmação não parte de uma reflexão da autora, mas repete uma ideia difundida pela comunicação social internacional desde o dia 9 de Novembro. Ela faz parte (e é a prova) de uma estratégia concertada de manipulação da opinião através dos media e que levou mesmo o Facebook a emitir um comunicado (não por causa da Teresa Sousa, evidentemente) desmentindo a ideia de que as redes sociais tinham sido as causadoras da derrota de Hillary Clinton. 

As redes sociais veiculam (e veicularam) informação verdadeira e falsa, do mesmo modo que os media. Seria mesmo muito interessante que os académicos de Comunicação, Jornalismo e Sociologia se debruçassem sobre a forma como estas eleições norte-americanas foram noticiadas pelos globais ou nacionais para perceber quem destrói a ideia de racionalidade e marca o ritmo da notícia definindo os assuntos e condicionando os leitores. 
Ignorar isso e fazer das redes sociais as responsáveis pela tragédia norte-americana é não perceber nada de Democracia.

O que estas eleições norte-americanas demonstraram é que, pela primeira vez, os media têm um rival que pode mostrar uma visão alternativa àquela que é reflectida pela comunicação social. É isso que preocupa os actuais manipuladores dos media. O que eles dizem - e Teresa de Sousa repete - é que isso é perigoso e deve (pressupõe-se) ser controlado.

terça-feira, outubro 20, 2015

A Guerra da Propaganda


Um leitor atento de jornais certamente que já terá notado padrões de comportamento dos media onde alguns temas interessam a uns jornais mais do que a outros. Não estou a falar de jornais de desporto, económicos ou de política, mas de certas notícias que se desenvolvem como um folhetim, com o seu novo episódio a cada dia, geralmente tratado como uma ‘cacha’ jornalística, ainda que o tema não interesse de igual forma a outros jornais.

Poderíamos dizer que tais notícias se devem a ‘fontes bem colocadas’ a que só esse jornal tem acesso, o que seria verdade se não fosse o caso de, sempre que surge alguma notícia com sinal diverso daquele para que as ‘fontes bem colocadas’ apontam, o jornal as ignorar, ou remetendo-as para algum recanto discreto nas suas páginas interiores.

Usar os media para veicular ódios particulares não é novo, já Eça de Queirós nas suas farpas referia alguns jornalistas que filavam as suas ‘vítimas’ por simples vaidade ou vingança pessoal. Naturalmente que o leitor interessado encontrará nos dias de hoje bons exemplos do que digo.

Esse tipo de jornalismo não é exclusivo da imprensa sensacionalista. Mesmo a chamada imprensa ‘séria’ não escapa à manipulação organizada pelos seus próprios jornalistas com o objetivo de favorecer interesses pessoais, ou retribuir serviços de ‘fontes bem informadas’. Acontece por exemplo em tempos de formação de governos, quando a imprensa aponta nomes de ‘ministeriáveis’ com o propósito de destacar as qualidades de algumas das pessoas que são fontes do jornal. Do mesmo modo, outras personalidades são citadas como tendo sido ‘sondadas’ com o propósito de as ‘queimar’, perante quem sabe que não as convidou.

Esta manipulação da informação pelos seus próprios agentes (jornalistas e diretores) tem-se tornado mais evidente nas últimas semanas do período pós-eleitoral. Uma onda de propaganda – claramente orientada para criar um clima de suspeição – tem enchido os jornais com editoriais e artigos de opinião dos seus próprios jornalistas.

Naturalmente que não há mal nenhum em que os jornais tomem uma posição política. É melhor até que se assumam de direita ou de esquerda, que apoiem este ou aquele candidato, do que pretenderem fazer-se passar por isentos quando na realidade não o são. Ao menos, daquela forma, os leitores sabem ao que vão. O problema é mais grave quando, no afã de ver realizados os seus desejos ou de fazer passar os dos outros, os media se tornam agentes de desinformação, espalhando boatos ou omitindo informação.

Há algum tempo, um profissional da comunicação, cuja memória respeito, disse que eleger um político “é como vender sabonetes”. Foi um lamentável lapso, no contexto em que a afirmação foi proferida, porém ela é infelizmente verdadeira.

A comunicação social tem um papel relevante na capacidade de influenciar as decisões dos eleitores, quer para eleger quer para demitir governos. Esse poder resulta não da sua habilidade de condicionar a capacidade de decisão dos cidadãos, mas na sua credibilidade. Porém, a credibilidade esgota-se e a mentira tem a perna curta.

Ao alinhar na propaganda, alguns jornalistas podem conseguir alcançar os seus objetivos pessoais, mas a maioria dos leitores perde a confiança nos media. Quando a informação de um jornal não valer mais do que a de um folheto de promoções de supermercado, perdemos todos. E isso, meus amigos, é muito pior do que a censura.



Publicado em Setúbal na Rede 19/10/2015

terça-feira, setembro 22, 2015

Para que servem as sondagens?


Em vésperas de eleições multiplicam-se as sondagens, com os diferentes órgãos de comunicação social a apresentá-las como se fossem resultados definitivos.

Costuma dizer-se que “os números não enganam”, ainda que cada sondagem tenha números diferentes da outra, enganando-se mutuamente. O “taco-a-taco” grego, entre o Syriza e a Nova Democracia revelou-se numa diferença de sete pontos; o “empate técnico” das eleições britânicas acabou numa vitória estrondosa de Cameron. As sondagens enganaram-se quando apontavam a vitória do “sim” nos referendos escocês ou grego, e no fim os eleitores disseram que “não”. Então, se as sondagens erram, para que servem?

Qual é a diferença entre fazer uma sondagem ou lançar os dados? Será melhor encomendar uma pesquisa eleitoral ou um mapa astral?

Naturalmente que as sondagens têm base científica, e são mais fiáveis do que as alternativas apontadas. Mas, afinal porque erram? Os especialistas admitem que uma das causas de erro das sondagens resulta do tamanho da amostra. As amostras pequenas são menos precisas do que as grandes. Ou seja, se o grupo de pessoas sondadas for pequeno, é menos provável que se encontrem todo o leque de diferentes opiniões que se poderiam encontrar em amostras maiores. Por isso é que os pequenos partidos são geralmente subvalorizados pelas sondagens.

Se nas sondagens o tamanho importa, também a forma como é constituída a amostra é decisiva para o resultado. Se a maioria dos elementos da amostra forem apoiantes de um determinado partido, é natural que esse partido acabe beneficiado na leitura dos resultados da sondagem. Para evitar isso é necessário um cuidadoso trabalho de campo, que no final acaba por ser dispendioso.

Talvez a justificação dos erros das sondagens esteja na redução de custos. Para poupar dinheiro corta-se no trabalho de campo, e para conseguir uma proposta competitiva reduz-se o tamanho da amostra. Afinal as sondagens custam dinheiro, e quem as compra – os órgãos de comunicação social – também anda em tempo de vacas magras.

Porém, não é objetivo desta crónica saber porque falham as sondagens. Há especialistas mais habilitados que procuram resposta para esse problema, e uma vasta literatura sobre o assunto sem que, até agora, tenham chegado a um consenso. As causas que apontei poderão ser parte da resposta, mas não são a solução do problema. Por isso volto a questão inicial: Se as sondagens se enganam, para que servem afinal?

Será que as sondagens fazem parte do jogo político para desmotivar o adversário e mobilizar os apoiantes? Pode uma sondagem condicionar o resultado de uma eleição, desincentivando os apoiantes do grupo apontado como derrotado, e contribuindo para que eles acabem por nem sequer ir votar? Um falso “empate técnico” não serve para incentivar os apoiantes do partido que no início era dado como derrotado, e fazendo que a campanha do que à partida era vencedor desmobilize e acabe por perder terreno? Sem dúvida que os teóricos da conspiração encontrarão aqui terreno fértil para desenvolver os seus argumentos, mas também não é por aí que pretendo ir.

A minha pergunta é bem mais simples: Porque é que os jornalistas se deixam enganar pelas sondagens?

As sondagens fazem parte do espetáculo. O circo mediático vive do fogo-de-artifício, esse cintilar de luzes em que se transforma a realidade. Para os jornalistas deste circo, as sondagens já não são previsões, mas a realidade. A verdade absoluta naquele momento. Quer sejam sondagens de empresas credenciadas, quer sejam inquéritos que o jornalista faz na rua ao primeiro “cidadão anónimo” que encontra, ou mesmo as palavras dos comentadores.

Da “Senhora de Cor-de-Rosa” às sondagens de 300 inquiridos, tudo é a Verdade, ainda que efémera, porque amanhã tudo muda. No dia seguinte alguém descobre uma nova Verdade e todos a seguem até que ela se acabe também por desfazer em fumo e outra estrela brilhe no céu.

O jornalista não se deixa enganar pelas sondagens, elas fazem parte do circo. E, neste espetáculo ninguém olha para trás. Ninguém vai recuar para perceber porque se seguiu um caminho errado. A Verdade está lá à frente. Sempre à frente.

As sondagens enganaram-se? Paciência. No Dia do Resultado, lá estarão todos, excitados e com sorrisos, confirmando a nova Verdade e consultando os comentadores que – tal como os oráculos – lançam os búzios e prevêem o futuro. Sempre o futuro, porque ele é o que nós quisermos, enquanto o passado é a causa daquilo em que nos encontramos.

Confesso que sempre que sou sondado dou as respostas mais parvas que me consigo lembrar. Afinal as sondagens servem para quê?



(Publicado em Setúbal na Rede em 21/09/2015)


segunda-feira, julho 27, 2015

Raios e coriscos

Certamente já ouviu a notícia do homem que foi atingido por um raio. Mais tarde, também a filha dele. Ambos sobreviveram e, em seguida, ganharam um milhão de dólares na lotaria. A notícia pertence àquele grupo de acontecimentos que, de tão extraordinários, são notícia em qualquer parte do mundo. Com efeito, “a probabilidade de tudo isto ocorrer é de 1 para 2,6 triliões”, escreveram alguns jornalistas apressados, citando o matemático que se deu ao trabalho de fazer as contas. Foi isto que leu, não foi? Mas está errado.

Não é a conta que está errada, mas a tradução. Ou melhor, a conta tem parcelas tão abstratas que eu não saberei confirmar ou refutar, já o modo como são traduzidas as notícias, de forma apressada – e por vezes incompetente – que caracteriza o jornalismo atual, é posto a nu numa simples notícia de “fait-divers” que habitualmente se entrega ao primeiro estagiário que apareça. O que está errado com a tradução da notícia é o resultado da conta: não são triliões mas biliões, o que não é exatamente a mesma coisa. Entre um e outro há uma diferença de 6 zeros, mas que à direita do número têm claramente outro valor.

A razão do erro está na origem da notícia: os sortudos são cidadãos canadianos, e o cálculo probabilístico foi feito para uma televisão norte-americana. No Canadá, Estados Unidos e na generalidade dos países anglo-saxónicos utiliza-se a Escala Curta para referir grandes números. Em Portugal e na maioria dos países europeus utiliza-se a Escala Longa e isso faz toda a diferença. Com efeito, enquanto a Escala Curta arruma os grandes números por categorias que têm por base potências de mil (milhões, biliões, triliões, etc.), na Escala Longa as categorias têm por base a potência de milhão (milhões, milhares de milhões, biliões, milhares de biliões, triliões, milhares de triliões, etc.).

A língua portuguesa tem ainda a particularidade de usar a mesma palavra para números com significados muito diferentes, uma vez que o Brasil adotou a Escala Curta enquanto Portugal e os restantes países de língua portuguesa utilizam a Escala Longa. Por isso “um bilião”, não é um bilião para todos os falantes de português. Porém, se isso é infelizmente comum quando a notícia é copiada de uma fonte brasileira, no caso dos felizes canadianos, encontrei o mesmo erro na imprensa espanhola, italiana ou alemã.

Esta confusão entre biliões e triliões é muito comum nos media quando se referem a temas económicos e financeiros e geralmente a números tão abstratos, para o comum dos mortais, que uma diferença entre três ou seis zeros é absolutamente irrelevante. Os jornais económicos anglo-saxónicos têm grande influência nos outros órgãos de comunicação europeus, e como se verificou na notícia que refiro, também os jornais de outros países da Europa sofrem da mesma incompetência de alguns dos seus jornalistas, que os congéneres portugueses.

É para evitar esta confusão entre escalas curtas e longas que os bancos europeus utilizam nos seus relatórios a terminologia norte-americana; e mesmo o Reino Unido, a partir do momento em que se tornou uma grande praça financeira, abandonou a escala europeia para abraçar a nomenclatura utilizada pelo capital dos Estados Unidos.

Assistimos assim a uma normalização da terminologia dos grandes números, sustentada na aparente incompetência dos jornalistas em distinguir entre uma escala e outra. Ou o número é importante e deve ser transmitido sem erros, e para isso usa-se a Escala Curta; ou o número é irrelevante, “sobre a probabilidade de ser atingido por um raio e ficar a falar búlgaro”, e aceita-se o erro com um encolher de ombros.

Enquanto no primeiro caso se impõe ao jornalista uma escala com uma medida diferente daquela que é usada no seu país (ainda que a fonte originária da notícia também seja portuguesa), no segundo caso, mais grave, é o jornalista que impõe aos seus leitores ou ouvintes uma escala que ele nem percebe. Dessa forma banaliza-se uma nomenclatura e cria-se a necessidade de uma normalização, ou “Acordo Numérico” para fazer prevalecer como correto o que atualmente não está certo.

Não deixa de ser curioso, no entanto, que muitos daqueles que hoje clamam contra o Acordo Ortográfico, nada digam – ou até mesmo colaborem – desta anexação do significado etimológico. Clamam que um “facto” não é um “fato”, mas não se importam que “um bilião” seja “um trilião”. Quando esse valor representa dinheiro, manda quem o tem e de onde vem. Mesmo que um raio nos caia em cima.


(Publicado em Setúbal na Rede em 27/07/2015)

quarta-feira, julho 01, 2015

Ecos da notícia


Noticiar é mais do que escrever uma notícia, é também escolher o que é – ou não é – noticiado e como essa informação chega ao leitor. Ao leitor cabe-lhe escolher a notícia que considera mais relevante, no órgão de comunicação social que na sua opinião é mais credível, e o texto escrito pelo jornalista que lhe parece mais claro e assertivo.

Dito desta maneira, parece que a diversidade de órgãos de comunicação social permite uma maior variedade, não apenas de pontos de vista sobre uma notícia específica, mas também uma multiplicidade de temas que não seriam notícia noutros jornais ou televisões.

Infelizmente, apesar de vários canais de televisão, algumas rádios, e um número ainda significativo de jornais diários, uma simples observação poderá comprovar que as notícias são as mesmas, mas também a perspetiva em que a notícia é abordada, os intervenientes entrevistados, e por vezes até as frases proferidas são repetidas por todos os canais.

Dir-se-á que este é um país pequeno, e não há assim tantas notícias. É verdade que muitas vezes não há por onde “fugir” ao assunto e, se a notícia é aquela, naturalmente que todos a vão dar. É verdade! Essa no entanto deveria ser a exceção à regra, todavia o mais comum é o contrário.
Quem está mais atento ao que se escreve e diz nos media, certamente reparará na dependência das notícias de agência. Para os que estão pouco familiarizados com a linguagem da comunicação social, explico que uma agência é uma espécie de grossista das notícias, que distribui pelos seus assinantes notícias e fotografias de acontecimentos, e dessa forma permitindo aos clientes da agência encaminhar os seus jornalistas para outras reportagens que farão a diferença relativamente aos outros medias.

O problema é que a crise no setor levou a cortes nas despesas e no pessoal, e os repórteres acabaram por ser dispensados, ou ficar sentados na redação, e as notícias da agência passaram a fazer os conteúdos da maioria dos órgãos de comunicação social. Como em Portugal só há uma agência – a LUSA – é fácil ver que a diversidade se fica por aí.

Um bom exemplo disso é uma notícia que foi publicada há alguns dias (e ainda perdura nas redes sociais) intitulada “Portugal é o quinto na lista dos países mais corruptos”. A notícia referia-se a um estudo da consultora Ernst & Young sobre a perceção da corrupção em 38 países. Ao lê-la percebe-se claramente que é um estudo sobre a perceção dos inquiridos, mas o título remete para uma afirmação taxativa de uma métrica verificável.

Se o corpo da notícia está bem escrito, o título recorre ao estilo “tablóide” exagerando o seu conteúdo. Seria de esperar que esse título não passasse no “crivo” da chamada imprensa séria, todavia não foi assim. Uma rápida pesquisa na Internet poderá revelar pequenas variações, mas o erro do título foi mantido em quase todos os órgãos de comunicação social portugueses.
Poderemos achar que foi desatenção ou impreparação dos jornalistas que em cada um dos media editaram a notícia, ou um exemplo mais evidente do clássico “corta-e-cola” que tomou conta das redações nacionais. Pode ser tudo isso e também a dependência das fontes de agência que retira ao jornalista os alertas de desconfiança.

Em vez de analisar os factos que têm em mãos, alguns jornalistas limitam-se a copiar e repetir sem espírito crítico. “Diz-se porque alguém disse”, e quem o disse merece confiança. Quando se confia, não é preciso verificar, nem alterar.

Como numa câmara de eco, a notícias são repetidas, e se os outros medias as repetem é porque só pode ser verdade. Acontece que às vezes são “meias-verdades”, ou mesmo uma mentira que, de tantas vezes repetida, se torna verdadeira.


Publicado em Setúbal na Rede 01/07/2015

terça-feira, junho 02, 2015

Corruptos


Corrupção não é uma palavra estranha na imprensa portuguesa e, ainda que muitos de nós tenhamos uma ideia de que a dimensão desde problema é muito maior em Portugal do que noutros países do mundo, não constituiu grande surpresa a revelação dos casos de corrupção na FIFA. O futebol é um dos sectores onde a perceção de corrupção é maior, e os detidos no âmbito deste processo são, na sua maioria, latino-americanos, uma das regiões do globo que nos parece conseguir produzir ainda mais corruptos do que nós.

Falamos naturalmente de perceções. E, se substituíssemos “Portugal” por Itália, França ou mesmo Alemanha, o parágrafo anterior continuaria a fazer sentido para um leitor em cada um desses países. A preocupação com a corrupção é transversal, e todos temos consciência que ela nos afeta mais a nós, ao mesmo tempo que parece ser endémica a um determinado povo ou atividade.
A forma como alguns órgãos de comunicação social generalizam e simplificam as complexas redes de corrupção criam a perceção de que estes casos ocorrem com mais regularidade, por exemplo, no futebol do que no ciclismo; que envolvem uns clubes mais do que outros; ou são protagonizados por determinados dirigentes e não por outros. Ou seja: as perceções estabelecem fronteiras. Umas vezes são norte-sul, outras ricos e pobres, ou brancos e pretos.

Mas quem corrompe os corruptos?

Quando olhamos a corrupção, pensamos na pessoa que tem poder para tomar uma determinada decisão que pode favorecer ou prejudicar outro, mas que entende que essa posição lhe dá a vantagem de fazer-se beneficiar a si própria, em primeiro lugar. No entanto raramente pensamos na pessoa, ou entidade que, para obter vantagem sobre os outros, está disposta a pagar os favores de alguém.
O caso da FIFA é um bom exemplo. Quando foi conhecido o escândalo e divulgadas as detenções ficámos a saber os nomes dos detidos, as razões da acusação e a tipificação dos crimes envolvidos. Mas até mesmo o comunicado do Departamento de Justiça norte-americano é cauteloso ao referir o pagamento de subornos por “uma grande marca desportiva dos EUA”. Provavelmente dir-se-á que não há a certeza de que a marca em causa esteja diretamente envolvida no escândalo de suborno mas, do mesmo modo, os suspeitos apregoados são presumíveis inocentes até prova em contrário.
A diferença é que quem paga subornos são os ricos. Paga quem tem dinheiro para pagar. E quem tem dinheiro tem tudo, sobretudo quando é um grande patrocinador dos media. Nos dias seguintes, a imprensa internacional referia que “A NIKE está a colaborar com o FBI”, um eufemismo para dizer que a empresa está a ser investigada, embora não tenha sido formalmente acusada. Na verdade, até pode nem estar envolvida, mas para haver corrupção, haverá sempre alguém a corromper.
A corrupção envolve sempre que dá e quem recebe, mas no jogo das perceções, quem corrompe não parece ser denunciado. Pode valer para o caso da FIFA, como valeria para os britânicos do Freeport ou para os alemães dos submarinos, para citar apenas alguns casos mediáticos que se esfumaram no ar. O escândalo da FIFA, sendo um caso de polícia, é também polifacetado. Tem componentes geopolíticas, económicas e de lóbis de interesses regionais. Deve por isso ser acompanhado com detalhe e atenção pela comunicação social, mas o jornalista não se pode esquecer que neste, ou noutro caso de corrupção, por exemplo em autarquias ou cartas de condução, há sempre o corrupto e o corruptor.

Na corrupção perdemos todos, mas há dois que ganham: o que corrompe e o que é corrompido. Não condenemos apenas aquele que vende a alma ao Diabo, perdoando o Diabo talvez porque o negócio dele é desviar almas alheias.

terça-feira, maio 05, 2015

Para que serve a liberdade a quem não a sabe usar?

No último domingo (3 de maio) assinalou-se o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A data foi instituída em 1993 pelas Nações Unidas para destacar um dos direitos fundamentais da sociedade, mas o relatório anual dos Repórteres Sem Fronteiras mostra que há pouco para celebrar.

O ano de 2014 foi marcado pelo ataque ao semanário satírico francês Charlie Hebdo e se – por um breve momento – o sangrento acontecimento chamou a atenção para as ameaças aos jornalistas em todo o mundo, também é certo que para a maioria dos políticos tudo se resumiu a uma pose para a fotografia, com o lápis na lapela. O tempo acabou por atirar para as hemerotecas a memória desses dias em que todos eram Charlie.

Não deixa de ser irónico que os medias sejam também vítimas da voragem com que absorvem, exploram e esquecem as notícias de cada dia. Só isso explica por que razão a data, em Portugal, passou despercebida. E todavia tinham um recente exemplo do ataque doméstico à liberdade de imprensa: o esdrúxulo projeto de lei sobre a cobertura jornalística das eleições, apresentado pelo PSD, PS e CDS-PP.

A ideia de um “controlo prévio” partindo de um leque tão abrangente de partidos do arco da governação deveria ser uma séria preocupação para os jornalistas. Ainda que a proposta original tenha acabado no “caixote do lixo legislativo”, o cercear da liberdade quer em alterações legislativas quer nas condições laborais, são ameaças permanentes que deveriam deixar alerta os jornalistas. A data proposta pelas Nações Unidas acabou por ser uma oportunidade perdida para fazer essa reflexão.

Naturalmente que o relatório dos Repórteres Sem Fronteiras (há também o da Freedom House com o mesmo objetivo, embora com resultados ligeiramente diferentes) aponta os “suspeitos do costume” – Síria, China, Coreia do Norte e Eritreia – para o topo da lista de violações à liberdade de imprensa e, se o papel dos jornalistas nesses países deve ser considerado, também valerá a pena meditar porque é que Portugal surge atrás da Jamaica, Eslováquia, Namíbia e Costa Rica na lista dos países com mais liberdade de imprensa.

Mas, se olharmos para os “medalhados” habituais, Noruega, Finlândia e Dinamarca, percebemos que nesses países são os jornalistas – e não os políticos – os responsáveis pela regulação. Onde existem Conselhos de Regulação formados por jornalistas, editores e leitores que analisam a pertinência das queixas e onde subsiste um efetivo direito de resposta.

Em Portugal, os jornalistas preferem deixar para outros a preocupação de os regular, na esperança que a qualquer momento podem pôr o crachá na lapela a dizer “Je suis Charlie”, um gesto mágico que tudo pode travar. Talvez um dia seja tarde demais.

Fernando Pessoa perguntava: “De que serve a liberdade de pensamento a quem […] não pode pensar?” Com efeito, para que serve a liberdade a quem não a sabe usar?


Publicado em Setúbal na Rede em 04/05/2015

domingo, abril 19, 2015

"Naufrágios no Mediterrâneo: porquê tanta indiferença?" *


"A pior hecatombe jamais vista no Mediterrâneo" sacudiu um pouco as consciências, em resultado do naufrágio deste fim de semana. Mas na semana passada, um outro deixou 400 desaparecidos nas águas do Mediterrâneo e também dos olhos dos media. Em 2014 morreram cerca de 3500 pessoas. Nenhuma dessas tragédias mereceu uma referencia nas redes sociais, ninguém disse "Je Suis Migrant", ou Charlie, ou qualquer coisa que mereça uma selfie ou um banho gelado em memória das vitimas. Aliás, as estas vitimas nem os media lhes deram nome, nem nenhum politico lhes fez alguma homenagem póstuma. E, todavia, por cada dez pessoas que morrem em media por dia, outras 500 a 1000 são recuperadas diariamente pela guarda costeira italiana e pelos navios mercantes. Todos esses sobreviventes trazem consigo sonhos, dramas, memórias, mas nenhum órgão de comunicação procurou descobrir a sua história. São apenas números escritos a vermelho na coluna das vitimas, ou a negro na lista dos refugiados para ser repatriados e recomeçarem tudo outra vez. Números apenas.
A Europa rica, que agora trata os refugiados com desprezo, esquece-se que também teve fome, também teve guerras e também teve refugiados que atravessaram o Atlântico à procura de uma oportunidade. A Europa rica esquece-se que isso lhe pode acontecer outra vez.

* Titulo da notícia do jornal online Rue 89: http://bit.ly/1bcJF4P

quarta-feira, abril 08, 2015

Apanhados na rede


As redes sociais têm sido notícia por casos de pessoas que foram despedidas, condenadas por difamação, ou até mesmo detidas por terem comentado em tom jocoso atitudes, comportamentos ou atributos de colegas de trabalho, superiores hierárquicos, figuras públicas ou até mesmo chefes de Estado.

Comentários que antes se faziam entre um grupo de amigos à mesa do café, são agora transpostos para o Facebook ou Twitter, sem que os seus autores se dêem conta de que aquilo que escrevem, não só é lido por todos os seus seguidores, como fica permanentemente disponível para qualquer um que o possa ler.

Muitas vezes, esses comentários são amplificados pelos jornalistas e saem do espaço “virtual” da Internet para o espaço “real” dos media, sobretudo quando foram produzidos por figuras públicas. São conhecidos casos de afirmações racistas ou xenófobas proferidas nas redes sociais por personalidades conhecidas, que obrigaram depois os seus autores a retratarem-se publicamente. Também, alguns lamentos da vida privada, revelados nas redes sociais por famosos, acabaram por inundar as páginas das revistas especializadas.

Sendo este um problema que afeta toda a gente – desde o político que critica a liderança do seu partido; ou do futebolista que se queixa das opções do treinador; até ao anónimo cidadão cujo comentário pode ser alvo de chacota, ou de conflito, no seu local de trabalho – as redes sociais devem, por isso, ser utilizadas com cautela, avaliando os riscos de dizer algo em praça pública.

Não estou com isso a dizer que devemos condicionar a nossa liberdade pessoal. Mas precisamos de ter consciência das consequências. As redes sociais não são quatro pessoas à volta de uma mesa. E se, quando falamos cara-a-cara com um outro interlocutor, pesamos sempre as palavras que usamos, mais cautela deveremos ter quando não temos uma ideia exata de quem nos vai ler.

Esses cuidados têm os jornalistas quando escrevem nos órgãos de comunicação. Cada jornal, rádio ou televisão tem uma linguagem específica e, ainda que existam variantes no modo como se trabalha a notícia em cada um deles, há em todos – pelo menos deve haver – o cuidado de que tudo o que é noticiado ter sido confirmado e apresentado de forma isenta. O que é extraordinário é que sejam os próprios jornalistas a esquecerem-se dessa regra quando escrevem no Facebook.

Pode o jornalista comportar-se nas redes sociais de modo diferente do que lhe é exigido em contexto profissional? E quando isso acontece, pode o jornalista sustentar que tem direito à liberdade de opinião? Pode a direção do seu órgão de comunicação pedir-lhe satisfações?

Vejamos a questão por outro ângulo: imagine que um advogado se lamentava no Facebook da falta de paciência que tem para aturar o seu cliente, ou um médico que afirmava que, se apanhasse determinado político numa urgência, o matava. Ou mesmo o padre que clicava “gosto” em todas as fotos eróticas. Não faria sentido, porque em todas estas profissões há uma ética que se sobrepõe, independentemente de estarem ao serviço ou não.

Então porque é que o jornalista desportivo festeja nas redes sociais o golo do seu clube? Ou o jornalista de política assume claramente as suas opções partidárias?

É certo que uns e outros podem ter as suas opções pessoais. Já houve jornalistas que trabalharam como assessores de imprensa, em partidos políticos ou clubes de futebol. Alguns jornalistas foram mesmo deputados. Mas desde sempre, quando isso acontece, separam-se as águas: ou se deixa de ser jornalista – quando há incompatibilidade – suspendendo a carteira profissional, ou – quando a atividade é compatível – evita-se o conflito de interesses, procurando uma especialização jornalística afastada da atividade conflituante. É simples.

Mas em Portugal há que goste de complicar.

O Diário de Notícias, o Expresso e a SIC querem avançar com normas de conduta nas redes sociais para os seus jornalistas. Também a TVI e a RTP ponderam discutir essa possibilidade. Os defensores do código de conduta sublinham que a fronteira entre o que é pessoal e profissional é cada vez mais difusa. Por isso, as normas visam evitar os erros que são cometidos hoje.

O jornalismo está sujeito a princípios éticos e deontológicos que se impõem, independentemente da plataforma que cada jornalista utiliza. Hoje já existe o Código do Jornalista que é a lei que enquadra a profissão; também o Código Deontológico, representando o conjunto de normas de autorregulação; e cada órgão de comunicação social tem o seu Estatuto Editorial, onde define as orientações dos seus profissionais e conteúdos.

Não são precisos mais códigos, é preciso bom senso. As normas implicam controlo e policiamento. Os órgãos de comunicação que sintam a necessidade de maior clarificação, que façam uma atualização do seu Estatuto Editorial, esses sim, muitas vezes reduzidos a palavreado sem sentido, quando devem ter um objetivo real.


(publicado em Setúbal na Rede em 08/04/2015)

terça-feira, janeiro 13, 2015

Onde está o Charlie?


A manifestação de Paris, em protesto contra os atentados, reuniu pessoas que habitualmente estão em campos opostos. Sendo significativo que a indignação contra o terrorismo possa congregar personalidades de campos tão distintos, também é certo que cada uma tem opiniões diversas na forma de responder à violência.

Ou seja, se estavam unidos no repúdio ao terrorismo, as diferentes visões para combater o problema, transformam a manifestação de milhões num ritual cujas consequências se resumirão ao efeito mediático que se repercutiu por todo o mundo.

Com efeito, se todos estavam lá contra a violência, uns estavam também pela defesa da liberdade de expressão, outros rejeitando o fundamentalismo islâmico. Para uns era a solidariedade com os jornalistas assassinados, para outros os mortos no supermercado judeu, outros ainda os policias abatidos à queima-roupa. Alguns para demonstrar que não têm medo da ameaça terrorista, outros para manifestar a sua fé inabalável nos valores da república e confiança no papel do Estado.

Naturalmente que todas as vítimas merecem respeito, e não nego que foi a rejeição da forma violenta como morreram que congregou milhões de pessoas em Paris e noutras cidades do mundo. O que quero dizer é que não se pode inferir que todas as pessoas ali presentes “fossem Charlie” e todos lutassem pela liberdade de expressão.

Os jornalistas têm tendência para generalizar. Fala-se com três pessoas e presume-se que as restantes trezentas pensam da mesma maneira. Em vez de relatar factos, o jornalista "interpreta, descodifica", na verdade opina contando aquilo que lhe parece, e geralmente parece-lhe aquilo que pensa. Quando parte para a reportagem o jornalista já sabe o que vai encontrar e por isso sabe onde procurar.

Significativo foi que na reunião informal dos ministros dos europeus presentes, se tenha acordado em rever algumas medidas do Acordo de Schengen que regula a livre circulação na Europa.

O terrorismo não faz só vítimas nos atentados. A cada ataque terrorista aperta-se também o cerco às liberdades civis. Era importante que no afã de querer defender a liberdade de expressão, os jornalistas não se esquecessem das outras liberdades.


Publicado em Setúbal na Rede a 12/01/2015

terça-feira, novembro 18, 2014

Boa comunicação


O surto de legionella pôs em evidência que a forma como as autoridades comunicam, condiciona o comportamento dos media.

Ao traçar desde logo um cenário em que se previa um agravamento da situação, os responsáveis pela saúde pública esvaziaram as notícias alarmistas e transmitiram confiança aos cidadãos. Simultaneamente, ao destacarem as medidas de prevenção, demonstraram que o combate ao surto era tarefa de todos, inclusive dos meios de comunicação.

A honestidade na comunicação é o segredo na relação com os media. Admitir que nem tudo está controlado não é sinal de fraqueza, se essa for de facto a realidade. Muitos políticos esquecem-se que "uma mentira esconde-se com outra mentira" e que uma espiral de mentiras leva ao caos na comunicação.

No caso da legionella estiveram bem as autoridades e os profissionais de saúde em matéria de comunicação. Admitiram desde logo que enquanto não fosse identificado o foco do surto, não haveria solução; que o número de vítimas iria aumentar e que dependia do comportamento de cada um evitar a contaminação.

Os jornalistas, no início, foram apanhados de surpresa com tanta sinceridade: Alguns procuraram contradições no número de vítimas, outros ainda tentaram atirar suspeitas de "mão humana", depois acabaram por perceber que "se nada está escondido, nada há para encontrar".

A necessidade de evitar o alarme foi entendida, não apenas pela administração de saúde, mas também pela oposição, que embora acompanhassem o evoluir da situação evitaram lançar dúvidas sobre a ação das autoridades. Mas nem todos os políticos perceberam o que estava em jogo. Desde logo o ministro do Ambiente, que na primeira comunicação que faz, alerta para "crime ambiental". Numa altura em que a incerteza ainda era muita, a afirmação do governante abria a porta à especulação – e ao descontrolo da estratégia de comunicação tão bem trabalhada pela administração da saúde.

O caso da legionella mostrou que as autoridades podem trabalhar em conjunto com os jornalistas, para evitar o alarme social, sem que isso signifique fazer favores políticos, ou pressionar os órgãos de comunicação. Criar zonas de sombra e incerteza na comunicação leva à especulação já uma comunicação honesta e franca não só é mais eficaz, como afasta aqueles que usam a desinformação para baralhar. Talvez alguns assessores possam tirar daqui uma lição.

sábado, outubro 25, 2014

Mudar


De tempos a tempos ocorre-nos mudar tudo. Mudar de casa, mudar de emprego, mudar de vida. Por vezes é o próprio destino que se encarrega de nos empurrar para essa mudança.
Na verdade, mesmo quando não queremos mudar nada, tudo muda à nossa volta. Mesmo nós estamos em permanente mudança: Envelhecemos, mudamos a nossa maneira de pensar, ou tornamo-nos mais teimosos para conservar o não queremos que seja alvo de mudança.
Também os jornais mudam. Mudam de grafismo, mudam de formato, por vezes até mudam o estilo como comunicam a informação. Essas são as mudanças visíveis para o leitor. As mudanças mais perenes e mais profundas ocorrem sem darmos por isso. Um jornal muda quando muda o seu diretor, ou os seus acionistas. Mas muda sobretudo, quando mudam os seus jornalistas.
O que define um jornal são as notícias que lemos nele. E as notícias são escritas por pessoas que lhes imprimem o seu cunho pessoal. Pessoas que têm o seu estilo próprio de escrever, mas também de indagar e de priorizar aquilo que consideram relevante.
Já aqui defendi várias vezes que quem define o que é notícia é o jornalista. É verdade que o acionista decide quais as linhas que orientam o jornal, e ao diretor cabe estabelecer quais as reportagens que se fazem, e em última análise, o que se publica no jornal. Mas a narrativa é do jornalista. Ele é que decide o que merece ser – ou não ser – relatado.
Num grande jornal, é o conjunto dos seus jornalistas que normaliza o estilo e define a “cultura” que o diferencia dos outros periódicos, e são os jornalistas mais velhos que assumem o papel de guardiões dessa cultura. Tal como numa empresa, é o conjunto de todos os elementos da organização que define as rotinas, que nenhum diretor, ainda que muito empenhado, consegue mudar facilmente.
Infelizmente, as mudanças ocorridas nas últimas décadas nos media nacionais levou a que maioria dos jornais seja constituída por redações muito jovens e por colaboradores precários, perdendo-se a memória da cultura que diferenciava os jornais uns dos outros, e a normalização da narrativa informativa. Tal como antes, cada jornalista define a sua narrativa, imprimindo-lhe o seu estilo pessoal, mas agora sem ser mediado pelos restantes elementos da redação.
Esta situação conduz a vários problemas. Em primeiro lugar porque os jornais regionais são feitos por dois ou três jornalistas, o que significa que o leitor nota que o jornal muda sempre que muda de jornalista. E, se mudar muitas vezes – tal como os outros também mudam muitas vezes, com os jornalistas circulando entre eles – os jornais acabam por ficar iguais.
Mas há outra mudança, menos percetível, que ocorre dentro da redação. Ao trabalhar com equipas muito reduzidas, o diretor de um jornal perde o seu principal poder que é o de decidir o que é publicado num jornal. Nenhum diretor quer ser confrontado com o drama das páginas em branco perto da hora do fecho de um jornal. Isso condiciona o responsável de um jornal, que acabará por escolher colaboradores que não criem problemas.
E muitas vezes os problemas não vêm da base da estrutura hierárquica, mas do topo. Quando a administração pede a notícia que vai facilitar um contrato comercial, o diretor quer um jornalista que faça o que se lhe pede sem muitas perguntas. Num grande jornal esse problema é diluído num suplemento escrito por estagiários, num pequeno jornal esse artigo terá de ser escrito pelo redator principal. Assim muitos jornais acabam por ser escritos por jornalistas acríticos, obedientes e precários.
Mudar a cor, o tipo de letra ou o formato não basta. É preciso mudar as vontades.

Publicado em Setúbal na Rede 20/10/2014

sábado, agosto 02, 2014

Foto choque


As fotografias do avião da Malaysia Airlines, abatido sobre a Ucrânia, causaram viva celeuma entre os jornalistas, depois de alguns jornais terem colocado na primeira página as imagens de corpos das vítimas entre os destroços do avião.

Não foi só em Portugal que esse debate surgiu. Um pouco por toda a parte as imagens das vítimas ilustraram as notícias sobre a queda do avião e levaram para as redações a discussão sobre os limites à exposição de cadáveres nos media (esta crónica, aliás, surge depois de eu ter lido um artigo de opinião de Ludwig Greven, editor do jornal alemão Zeit online, sobre o mesmo tema).

Com efeito, os motivos da queda do avião, a par da tensão diplomática que depois se seguiu, despertaram o interesse dos leitores e trouxeram para a Internet - e particularmente para as redes sociais - um debate aceso enriquecido por fotos recolhidas no local, não apenas por jornalistas, mas também por todas as pessoas com telemóvel que conseguiram lá chegar.

Quando chegaram às primeiras páginas dos jornais, já as imagens tinham percorrido as redes sociais, argumentam uns, sublinhando que se há interesse do leitor e é a realidade, porquê escamoteá-la? Mas outros sustentam que é voyeurismo mórbido que deve ser evitado.

É certo que os jornais que o fizeram (em Portugal ou noutros países europeus) têm um histórico de jornalismo considerado sensacionalista, pelo que a utilização destas imagens abona pouco em prol do argumento favorável. Mas também é verdade que, se não é comum verem-se imagens de vítimas de acidentes, os jornais (mesmo da dita imprensa séria) têm publicado numerosas imagens de vítimas da guerra, como no caso do conflito de Gaza.

E isto suscita outra questão: Qual a diferença entre as vítimas do ataque ao avião da Malásia na Ucrânia e as vítimas dos bombardeamentos israelitas em Gaza? Porque podemos ver imagens de corpos empilhados em valas comuns, executados às mãos de um ditador, ou das vítimas de um ataque terrorista, e não podemos ver as imagens dos mortos de um acidente ferroviário ou aéreo?

Quando é que as vítimas deixam de ser apenas indivíduos e passam a ser parte de uma comunidade afetada? Quando é que o estatuto de mártir de uma causa se sobrepõe à dignidade que todos devem ter depois da morte? São questões que merecem reflexão, e não apenas discutir os limites entre o sensacionalismo e a reportagem da dura realidade.

O sensacionalismo também se faz mesmo sem mostrar corpos estropiados, como aquele canal de televisão cujo repórter vasculhou a bagagem dos passageiros do avião; o voyeurismo também se alimenta da dor dos familiares, explorada em direto pela televisão. Há imagens chocantes "dignas" de serem exibidas pela imprensa "séria" e há outras imagens que resultam do oportunismo de alguns órgãos de comunicação. Não é, no entanto essa a explicação.

A resposta encontrei-a no artigo de Ludwig Greven que referi: “As imagens das vítimas são agora parte da guerra de propaganda. Elas são usadas especificamente para produzir efeitos sobre o lado oposto. E são muitas vezes manipuladas com essa finalidade, tornando a sua origem e autenticidade difíceis de verificar.” É por essa razão que vimos as imagens dos corpos dos passageiros do avião abatido na Ucrânia e não vimos os das vítimas dos aviões caídos em Taiwan ou no Mali. É por causa da propaganda que temos imagens de vítimas dos bombardeamentos da Síria, de Israel, ou de outra qualquer guerra que consiga aceder à rede que alimenta os media globais.

Por vezes essas imagens tiradas doutros conflitos, às vezes mesmo encenadas e, em muitas ocasiões, trabalhadas com o programa de edição de fotografia chamado PhotoShop que permite manipular a imagem, acentuando o que é relevante e apagando o que não interessa à mensagem. Agora temos o "Foto Choque" (ou se preferirem o anglicismo: photoshock) através do qual o poder da imagem é acentuado, com o objetivo de induzir uma mensagem. Em qualquer dos casos, as vítimas são os mortos exibidos nas imagens, mas também os leitores.


(Publicado em Setúbal na Rede em 29/07/2014)


terça-feira, julho 01, 2014

Paz, Pão, Povo e Televisão


O anúncio de que o PSD se prepara para lançar um canal de televisão agitou a comunidade jornalística. Ao entusiasmo de alguns, outros responderam com a pergunta "não bastam os que já têm?", numa clara alusão à predominância de comentadores social-democratas em quase todos os canais de televisão. O receio de que a máquina da propaganda governativa utilize uma nova "arma", sobrepôs-se à preocupação pela institucionalização da televisão como ferramenta de propaganda política. Todavia, não dei por alguém se ter interrogado sobre o papel dos jornalistas neste tipo de órgãos de comunicação.

Já as questões jurídicas suscitaram de imediato a resposta do Presidente da ERC, Carlos Magno, e do Vice-presidente do Conselho Regulador, Arons de Carvalho, ambos considerando que o projeto "está dentro do espírito da Lei da Televisão". Reações que são reveladoras de que este é mais do que um simples projeto de intenções e que em breve veremos uma onda de televisões partidárias, como acontece agora com as televisões dos clubes desportivos.

Com efeito, a lei veta aos partidos políticos o acesso à televisão, mas esta limitação aplica-se ao que se considera "televisão em sinal aberto" ou, dito de uma maneira mais simples, à TDT. Porém, a lei permite o acesso à Internet e a "canais de acesso condicionado" como por exemplo o cabo. Percebe-se a intenção do legislador. A televisão aberta (TDT) tem um número limitado de canais, por isso o acesso à licença de emissão deve garantir que ficam afastados dela quem tem parte no processo de decisão. Já quanto à Internet e cabo, dado que podem ter, teoricamente, um número ilimitado de canais, não vale a penas restringir o acesso, uma vez que – em princípio – todos os partidos acedem em igualdade de circunstâncias.

Apesar de tudo, a lei ainda impõe condicionantes na programação, definindo-a como um serviço "de natureza doutrinária, institucional ou cientifica" e, se é verdade que não se espera que um canal partidário vá transmitir um reality show, também é certo que os conceitos definidos na lei podem ser esticados até ao impossível. Talvez por isso, já há quem defenda uma maior clarificação da Lei da Televisão, até porque além do canal do PSD, muito provavelmente, teremos também o canal do PS e do PCP. Seria uma boa oportunidade para também rever o papel dos jornalistas nestes órgãos de comunicação.

O artigo 14.º do Estatuto do Jornalista estabelece que "constitui dever fundamental dos jornalistas […] informar com rigor e isenção". É difícil perceber que isenção e rigor poderão ter jornalistas que trabalham para um órgão de comunicação propriedade de um partido político ou clube desportivo. E, no entanto, os canais de televisão deste género (atualmente apenas desportivos) têm jornalistas nas suas equipas.

O jornalismo corporativo não é propriamente uma novidade. Desde sempre existiram revistas e boletins de organizações profissionais ou sociais e até mesmo por organismos públicos oferecendo informação, em que eles são também os atores e as fontes jornalísticas. A descida nos custos de produção de televisão e o acesso a novas plataformas como o cabo e Internet abrem novas oportunidades para os financiadores deste tipo de órgãos de comunicação. A crise nos media tradicionais está a transferir os jornalistas para este género de órgãos de comunicação – por vezes rostos conhecidos da televisão – dando a ilusão de que estamos perante um novo órgão de informação quando na verdade é mais um canal de marketing da instituição. A chegada dos partidos políticos, através da televisão, é a ponta visível de um iceberg ainda sem regulação.

(Publicado em Setúbal na Rede em 01/07/2014)

quarta-feira, junho 04, 2014

Boa Imprensa


Ouvimos muitas vezes dizer que determinado político "tem boa imprensa", como contraponto a outros que se presume, não terão.

Ter boa imprensa não é, neste caso, uma consequência, mas uma qualidade do indivíduo. É o mesmo que ter "boa imagem", "eloquência" ou "carisma". Boa imprensa é saber agradar aos jornalistas, conseguindo em troca, facilidades na divulgação de notícias positivas e evitando (ou pelo menos minimizando) as notícias negativas. Se quiserem, é uma espécie de "marketing pessoal" feito pelos media.

Por diversas vezes tenho referido aqui que o envolvimento do jornalista nas causas que noticia condiciona a perceção que o leitor tem dos acontecimentos. E não se trata da militância política. Essa, geralmente o jornalista consegue separar da sua atividade profissional. É algo mais subtil.

Quem está fora do meio jornalístico certamente imaginará que a manipulação dos órgãos de comunicação social é feita por telefonemas de ministros, exigências de administradores ou de anunciantes e ordens dos diretores, ditando o texto das notícias para jornalistas obedientes.

Embora esse cenário possa ser plausível, ele é muito raro nas redações. Ainda que a estrutura hierárquica defina o que é que o jornalista vai fazer, é ele que decide o ângulo da notícia e o texto que vai escrever.

Esta autonomia do repórter, que caracteriza a comunicação social em Portugal e na maioria dos países ocidentais, tem no entanto um contraponto: ela está ligada ao interesse do jornalista pelos temas que noticia. Quer dizer que se o jornalista tiver filhos na escola, certamente estará mais sensível para assuntos relacionados com a educação, do que outro que não tenha essa preocupação. Do mesmo modo, um jornalista que tenha uma opinião sobre as touradas, estará mais predisposto a escolher esse tema de um discurso político que abordou também outros assuntos.

Naturalmente que os jornalistas se leem uns aos outros e, desse controlo mutuo que exercem, resulta uma realidade que é partilhada por todos sobre o que é notícia, ainda que, para cada um, o modo como esta é abordada reflita a sua perspectiva pessoal. Ou seja: não é o interesse da notícia que a torna importante, mas é o interesse do jornalista que a faz importante. E, se algo é importante para os jornalistas, acabará também por ser importante para os leitores. Os políticos sabem isso, e os mais competentes sabem utilizá-lo a seu favor.

Há duas formas de chegar aos eleitores: uma através de um discurso assertivo e de uma base de apoio militante que sustente um movimento incontornável para os jornalistas; outra por um discurso cativante para os jornalistas, assegurando uma presença nos media que se torne incontornável para os eleitores.

Quando a mobilização dos militantes é escassa e o poder da televisão decide quem ganha e quem perde as eleições, não surpreende que os políticos procurem ganhar votos conquistando a atenção dos jornalistas. Ter "boa imprensa" é o melhor trunfo eleitoral. É por isso que na campanha para o Parlamento Europeu não se debateram temas da Europa. Não porque eles não tivessem sido falados pelos candidatos, mas porque os jornalistas não os acharam interessantes e os políticos acabaram a falar de assuntos que lhes garantiam presença regular nos telejornais. Muitas vezes refinando-se na arte da "peixeirada".

Se os políticos de hoje são fracos e a política é desinteressante, será porque os políticos são maus, certamente, mas é também porque os jornalistas não são mais exigentes. Afirmar que os políticos têm discursos ocos é esquecer que quem faz as perguntas e edita as respostas são os jornalistas. Os políticos só querem "ter boa imprensa" e para isso, como dizia a minha avó, "albardam o burro à vontade do dono". Os media "têm a faca e o queijo na mão", é bom que não se esqueçam que também são responsáveis pelo resultado.




Publicado em Setúbal na Rede em 03-06-2014 

segunda-feira, maio 05, 2014

Propaganda

A propaganda está a ocupar o espaço onde antes havia censura. Mas ao contrário desta, são poucos os que se revoltam perante esta realidade.

A evocação dos 40 anos do 25 de Abril recuperou velhas histórias sobre a censura que chocaram os jovens jornalistas. "Como é possível que o poder consiga calar a verdade?" perguntou-me um deles, ao acabar de ler um dos excelentes artigos sobre a Revolução de Abril. É certo que a pergunta era mais de indignação, do que à espera de uma resposta minha. Eu também não vivi esses tempos de mordaça, e as memórias da censura chegaram-me através dos velhos jornalistas que conheci.

Hoje, temos a convicção que esses tempos não voltarão. Não apenas por vivermos em democracia, mas sobretudo pela diversidade de meios de comunicação que tornam impossível um regresso ao "visto prévio" e ao lápis azul. Pura ilusão.

Apesar da Internet, da TV por satélite, ou até das tradicionais rádios de ondas curtas, sabemos que várias ditaduras conseguem erguer barreiras à divulgação de informação. Anualmente várias instituições quantificam a liberdade de imprensa no mundo, e os resultados continuam a não ser muito animadores. A maioria da população do planeta não tem livre acesso à informação. Muitos jornalistas também não. Mesmo em democracias.

É aliás curioso que, apesar da profusão de órgãos de comunicação social, cada vez mais as notícias que vemos e lemos nos parecem iguais. Não apenas nos temas, mas na forma e ângulo com que são apresentadas ou até mesmo no texto exatamente igual.

Este mimetismo tem sido estudado por muitos académicos, especialistas na sociologia da comunicação. Os media seguem-se uns aos outros, e os jornalistas também. É por isso que, num discurso de um político, por exemplo, os jornalistas acabem por destacar as mesmas frases (por vezes já sublinhadas pelos assessores, no texto distribuído aos repórteres). E, se por acaso algum deles escolhe outro caminho, é bem provável que seja admoestado pelo chefe "por ter passado ao lado da notícia".

Aqueles que são considerados "referência" são imitados por outros, mas por sua vez também têm as suas referências, numa pirâmide de influência que foca e condiciona a informação. Esta é uma forma de censura, não imposta por um poder despótico, mas pela "ditadura da normalidade". Quem controlar o topo da pirâmide, pode influenciar toda a comunidade.

Os recentes conflitos no mundo revelaram aos leitores mais atentos um padrão de "branco e preto" nos atores das notícias. Por mais distantes que nos pareçam os acontecimentos, os medias relatam os factos como se fossem entre "nós e os outros". Num jogo subtil de palavras, temos de um lado – do nosso lado – os "opositores", "revoltosos" ou as "vítimas" enquanto do outro estão os "terroristas", "provocadores" ou "desordeiros". Essa linguagem é coincidente com o discurso oficial da diplomacia (o mesmo se aplica para o "outro lado"), não porque exista uma coação ou porque os órgãos de comunicação social se tenham assumido todos como "oficiosos", mas porque simplesmente é o que a "normalidade" impõe.

Sabemos que, na economia, muito poucos controlam quase tudo. Preocupamo-nos com o domínio desses grupos económicos na banca, energia ou tecnologia, mas não nos media. E todavia, a influência dos lóbis torna-se evidente à medida que as tradicionais famílias fundadoras dos jornais dão lugar a grandes grupos económicos que usam os órgãos de comunicação social para influenciar as opções geopolíticas que favorecem os seus negócios.

Enquanto a censura é a arma do poder político das ditaduras, a propaganda é o expediente do poder económico para influenciar a opinião pública nas democracias. A razão da censura é, escondendo a verdade, levar-nos a acreditar numa outra realidade. A propaganda também. E, tal como a censura, a propaganda anula-se nas fronteiras, porque ela não se faz para atingir o outro, mas para nos atingir a nós. Ambas erguem uma cortina de fumo para legitimar a ação do poder. Só que, ao contrário da censura, o jornalista consente e colabora, porque ele é o primeiro a acreditar.


Publicado em Setúbal na Rede a 5/5/2014

quarta-feira, abril 30, 2014

Mistérios


Uma empresa australiana diz ter encontrado o que parecem ser os destroços do avião da Air Malaysia desaparecido em Março. Segundo a empresa, especializada na pesquisa geofísica, parecem ser de um avião as manchas que surgem no fundo do Golfo e Bengala, entre a Índia e Myanmar, muitos milhares de quilómetros a norte da atual zona de buscas.

Curiosamente, a equipa liderada pelos australianos que está a coordenar as buscas já se apressou a não dar crédito à hipótese levantada. É estranha esta reação dos peritos, sobretudo quando há poucos dias admitiam não ter nenhuma prova de que o avião estava no local onde o procuravam.

O mistério do desaparecimento do avião malaio está cada vez mais a intrigar-me.

Começa a ser tudo demasiado estranho para um suicídio. Primeiro a simulação de queda, depois o voo furtivo e agora o aparecimento de sinais das caixas negras num dos pontos mais isolados do planeta. Apesar das dificuldades logísticas, foi feito um rastreio na zona que não encontrou sinal do aparelho.

Eu sei que há sempre uma explicação simples para tudo o que acontece, mas parece que estamos numa conspiração ao nível dos melhores filmes de espionagem.

Se simularam um acidente num sítio, se voaram para outro lado escondidos dos radares, também podemos admitir que essa ação poderia ter tido a cobertura de alguém fora do aparelho. Se assim foi, então também os sinais das caixas negras não correspondem ao local onde o avião está.

Quer dizer que, num cenário de conspiração, se o avião foi desviado e se pousou em algum outro local, poderiam ter tirado as caixas negras do aparelho para depois as lançarem ao mar, ou falsificaram o sinal com outra caixa negra e lançaram-na ao mar, ou ainda o falso sinal foi emitido durante algum tempo por um submarino para concentrar as buscas num determinado local.

Mas porquê esconder o avião? A resposta só pode ser uma: para que não se saiba o que aconteceu. Todas as respostas ao mistério só podem ser encontradas na observação aos restos do aparelho e especialmente às suas caixas negras. Sem isso, apenas restas suposições.

Mas porquê essa preocupação em apagar o rasto? O mistério está no que levava, ou em quem ia no avião. Vejamos: se fosse uma avaria, ou raio, um meteoro ou um ato tresloucado de um dos pilotos, o avião teria caído e pronto. Encontravam-se destroços, as caixas negras e um local onde as famílias pudessem atirar flores. Foi assim com o voo da Air France que caiu no Atlântico. Mas neste caso foi um ato deliberado.

O MH370 desviou-se da sua rota depois de ter subido a uma altitude que poderia ter morto (e provavelmente matou) todos os passageiros, depois desceu como se estivesse em queda livre, para voar durante horas fora do alcance dos radares. Por quê?

Se fossem terroristas teriam reivindicado o atentado ou teria havido outras consequências; se fosse pirataria teria sido pedido um resgate. E se fosse para retirar algo ou alguém que ia a bordo? Aí teria pousado em algum local e depois de alcançado o objetivo, quem o fez ter-se-ia defeito do avião, escondendo-o onde não o pudessem encontrar. Mas o que haveria de tão valioso que justificasse a vida de tantas pessoas? Segredos de Estado.

O caso Snowden demonstrou o que os Estados são capazes de fazer pela preservação dos seus segredos. No caso Snowden não houve mortos, mas também é certo que, em resultado da notoriedade que se alcançou, não poderia haver. Mas que poderia ter acontecido se a fuga tivesse sido travada antes de chegar aos media? Não sabemos.

No caso do voo MH370 apenas podemos admitir que poderia haver algo ou alguém que não podia chegar à China. Que por causa disso o voo foi desviado e os seus passageiros foram mortos. Que o que quer que fosse foi recuperado, o avião foi afundado e falsas pistas foram espalhadas baralhando as buscas de salvamento. Reparem bem no conjunto de casualidades: "queda e buscas no Golfo da Tailândia"; "terroristas iranianos"; busca no Estreito de Malaca e Mar de Andaman"; "golpe terrorista e desvio para norte", "destroços avistados por satélite em vários locais" e finalmente "sinais das caixas negras".

Num mundo que acreditamos estar tão vigiado, parece incrível que um avião possa desaparecer. A menos que alguém não queira que ele seja encontrado, porque a sua descoberta poderia revelar um escândalo de enormes dimensões. Ou não.

quinta-feira, abril 24, 2014

A "ameaça russa" não é o que parece


A recente crise na Ucrânia relançou o debate sobre o alargamento da NATO, mas também sobre o reforço militar da aliança no leste europeu. Os mais atentos notarão o pouco entusiasmo da Alemanha numa resposta mais militarista à Rússia, mas provavelmente associarão isso aos fortes laços económicos entre Berlim e Moscovo. Embora tal seja verdadeiro, não é toda a verdade.

Para os Estados Unidos, o crescimento da NATO e do peso militar na geopolítica europeia representa mais influência norte-americana na Europa. Em contrapartida, para a União Europeia, o alargamento significa atraso nos seus planos para se autonomizar dos EUA.

A ideia de que a Europa une todos os países membros da UE, centralizando a decisão em Bruxelas, pode ser verdade para os transportes, economia, ou políticas sociais, mas não é para a defesa. Não existe uma União Europeia dos ministros da Defesa e a própria defesa da UE é do domínio de cada Estado-Membro.

A NATO é assim a única organização de Defesa na Europa. O problema é que nem todos os países da União Europeia estão na Aliança Atlântica, e há países que integram a NATO e não fazem parte da UE. Um deles chama-se Estados Unidos da América, um parceiro desejado por todos, porque é dissuasor para qualquer eventual ameaça, e que liberta os governos europeus de pesados orçamentos militares.

O inconveniente é que os Estados Unidos têm a capacidade de influenciar a diplomacia europeia e, se isso é irrelevante para Estados como Portugal, Reino Unido ou Polónia que desde sempre tiveram a bússola apontada para os EUA, já não é válido para os Estados que ambicionam ter uma posição de potência regional no continente Europeu. Foi assim com a França e é agora com a Alemanha.

Os alemães "mandam" na Europa e querem conduzir a sua política externa (e a política externa europeia) à sua maneira. Os pilares da diplomacia alemã assentam no reforço da União Europeia e na expansão da sua influência para leste. Porque não convém que essa expansão seja feita em nome alemão (por razões históricas), Berlim aposta numa Europa do Euro, uma federação onde o peso económico será relevante, e esse peso é maioritariamente alemão.

A "ameaça russa" serve os interesses alemães porque valoriza o projeto europeu, retirando influencia aos movimentos nacionalistas que têm crescido na Europa, mas é pontual, só interessa até às eleições europeias. O crescimento económico alemão vai fazer-se a leste, não até à Rússia, mas com a Rússia. Tal como os russos, os alemães têm uma visão continental da geopolítica e isso perturba os países que ficam entre os dois.

O reforço militar norte-americano na Polónia e países bálticos não é apenas uma pressão sobre os russos, mas também uma "força de interposição" entre os dois gigantes continentais. Uma garantia que a Polónia não será mais uma vez partilhada entre Berlim e Moscovo. Não que esse risco exista atualmente, mas é uma mensagem dos EUA que conforta psicologicamente os cidadãos do leste europeu.

O alargamento da NATO e da presença norte-americana na Europa, além de proteger de uma ameaça russa, tem o poder de confortar os Estados europeus de que a sua segurança não será garantida pelos seus vizinhos. Pode ser bom na perspectiva de cada Estado, mas isso tem impedido a Europa de encontrar uma solução para a sua própria segurança e condiciona a sua segurança às opções geopolíticas norte-americanas.

segunda-feira, abril 07, 2014

Os advogados do Diabo



Há políticos e políticos. Uns que, apesar dos seus telhados de vidro, escapam incólumes ao escrutínio dos jornalistas e outros que – tendo também telhados de vidro – veem todos os momentos da sua vida examinados ao pormenor. Não quero dizer que os jornalistas favorecem uns em detrimento dos outros, mas é a constatação de que há políticos que atraem mais os jornalistas. Porquê? Esse é o grande mistério.

Na história da democracia portuguesa houve 17 primeiros-ministros. Certamente que a maioria dos meus leitores terá dificuldade em recordar o nome de uma dezena deles (e estou a ser otimista), mas se pelo contrário, lhe pedir para nomear os mais criticados nos media, não hesitará em citar-me três: Mário Soares, Cavaco Silva e José Sócrates.

Deles sabemos tudo: Os negócios da mãe, dos filhos e do genro; as casas na praia, a vida em Paris ou os amigos de Macau. Sobre eles escreveram-se milhares de páginas, alguns livros e centenas de manchetes. Por causa deles, surgiram jornais que se especializaram nos seus escândalos, e alguns desses jornais acabaram por desaparecer quando o filão se esgotou.

Apesar de tudo, Soares e Cavaco foram eleitos para o mais alto cargo da nação.

No Vaticano, durante um processo de beatificação, são nomeados dois especialistas religiosos. Um deles, chamado de "promotor da fé", reúne todas as provas dos milagres, faz entrevistas, colhe pistas e o outro, apelidado de "advogado do Diabo", vai atacar todas as evidências, juntando tudo o que há contra o candidato. Apesar de campos aparentemente opostos, um e outro contribuem para um objetivo comum: encontrar a verdade.

O jornalismo é como andar no fio da navalha, entre o ódio e o deslumbramento. Quando o jornalista tomba para um dos lados, deixa de ser jornalista. Infelizmente essa é uma realidade muito comum não apenas no jornalismo de política, mas também de economia ou de futebol. Ao tomar uma posição, jornalista torna-se um agente de uma das fações.

A ideia de que o jornalista só se aproximará da verdade se for o antagonista, ou o "advogado do Diabo" é errada porque, ao focar-se no ataque, vai ignorar todas as evidências que contrariam o seu ponto de vista. Na realidade, ao colocar-se desse lado estará a posicionar-se no campo oposto ao que considera ser o do "promotor da fé".

Não sou provedor de outros órgãos de comunicação social, pelo que não referirei nomes nem episódios concretos, mas como observador dos media, estou convicto que a relação entre alguns jornalistas e José Sócrates já entrou na categoria dos ódios pessoais. Se isso é irrelevante para o político, é – do meu ponto de vista – mortal para o jornalista. Põe em causa a sua credibilidade.

Enquanto os políticos conseguem fazer reverter a seu favor os ódios pessoais, conseguindo ganhar votos vitimizando-se, o jornalista ao tomar partido coloca-se num dos lados, e isso é percebido por todos. Naturalmente que haverá sempre quem gabe a sua "coragem" ou critique a "arrogância". Mas, ao contrário dos políticos, o jornalista não pode ser "a favor" ou "contra", porque se for, ele é político também.

Os jornalistas que no passado "perseguiram" Mário Soares e Cavaco Silva, entraram na política ou não ficaram para a história. Também aqueles que há uma década não param de falar de José Sócrates, tal como aconteceu com Soares e Cavaco, de tanto o odiar ainda o vão eleger presidente.


(Publicado em Setúbal na Rede 07/04/2014)

sábado, março 15, 2014

Tambores de guerra


Numa guerra, a primeira a morrer é a verdade e as primeiras armas a disparar são as palavras. Nenhum conflito se resume a um jogo de "polícias e ladrões" em que de um lado todos são bons e do outro estão os maus. O mundo não é a preto e branco.

Mas, na altura em que se ouve o rufar dos tambores, a mensagem polariza-se, generaliza-se, hiperboliza-se e repete-se, tal como ensinam os manuais militares deOperações Psicológicas. De um lado está a "oposição", ou outra palavra suficientemente vaga para que caibamos todos nós; do outro está o déspota: "Assad", "Saddam" ou agora "Putin". É preciso que tenha um nome e um rosto, para que o ódio possa ser focado. É esse personagem terrífico que bombardeia e mata, muitas vezes o seu próprio povo. Os "nossos" nunca atacam, mas "conquistam posições", e se houver vítimas serão "danos colaterais".

Não estou a dizer que os jornalistas manipulam os factos, na verdade são os factos que manipulam o jornalista. Uma narrativa implica um conjunto de ações e reações que contribuem para um determinado desenlace. O jornalista pode escolher entre ser a correia de transmissão ou o indagador.

Na guerra há profissionais para produzirem factos que conduzem a uma determinada narrativa, sobretudo nas guerras de hoje que se ganham ou perdem no campo interno. É a opinião publica que decide se os seus militares fazem uma retirada humilhante ou se pelo contrário avançam de peito firme em direção de coisa nenhuma. É ela que decide se há orçamento e soldados para alimentar uma guerra ou se terão de ser os diplomatas a encontrar uma saída, e o seu apoio conquista-se através dos media, muito antes de se disparar o primeiro tiro. Esse é o momento que agora vivemos: o da legitimação do combate, incitando, sugerindo e hiperbolizando os riscos.

Tal como o náufrago à deriva na corrente enfurecida, o jornalista tem apenas duas opções: ou nadar, ou deixar-se levar. Seja qual for o caminho que siga, encontrará sempre verdades para noticiar, mas ao escolher um lado, assume que há verdades que não quer revelar.

Preocupa-me que os media nacionais, e os jornalistas em particular, se encontrem à deriva nesta interpretação unívoca da realidade. Ela é o oposto do que se produz "no outro lado" - e não quero com isso dizer que é do outro lado que está a verdade - o que temo é que ambos estejam a olhar o mundo de "olhos fechados". Até porque os riscos e ameaças agora desenhados podem desfazer-se em nada no dia em que os fabricantes de guerras olharem para outro lado.

Vejam o caso da Síria: depois de tudo o que se disse e escreveu, acabou por sair do noticiário internacional não porque a guerra tivesse acabado, mas apenas porque perdeu o interesse para aqueles que estavam interessados nela.



Publicado no Setúbal na Rede em 10/03/2014