domingo, novembro 09, 2025

O ruído dos comentadores e a crise da informação

 

Vivemos numa era em que a opinião se tornou um bem de consumo rápido, servido em doses diárias nos ecrãs, rádios e plataformas digitais. Os comentadores-residentes, figuras que opinam sobre tudo com a mesma convicção, ocupam hoje o lugar que antes era reservado ao jornalismo rigoroso e à análise fundamentada. Não é um fenómeno novo — Pierre Bourdieu já alertava, em Sobre a Televisão (1996), para o perigo dos fast-thinkers: pessoas que, dominando a lógica mediática, substituem o debate profundo por frases curtas e certezas fáceis.

A televisão, e por extensão os novos média, operam por circularidade: jornalistas que citam comentadores, comentadores que respondem a jornalistas, programas que reproduzem debates fabricados por outros programas. A informação gira em circuito fechado, alimentando-se a si própria, enquanto a realidade é reduzida a um conjunto de slogans. Pascal Boniface, em Les Intellectuels Faussaires (2011), criticou este mesmo mecanismo, apontando a forma como pseudoespecialistas, protegidos pela sua visibilidade mediática, moldam a opinião pública com simplificações ou falsificações convenientes.

Este é, talvez, o maior paradoxo do nosso tempo: nunca tivemos tanto acesso à informação, mas raramente tivemos tão pouco discernimento na sua filtragem. A lógica da velocidade e da viralidade criou uma arena onde o saber não é premiado — o palco é ocupado por quem fala mais alto ou gera mais cliques. A consequência é uma opinião pública condicionada, não pela pluralidade de vozes, mas por uma elite mediática que repete as mesmas narrativas até que estas pareçam consensuais.

O papel do jornalista — e do verdadeiro intelectual — deveria ser outro: mediar, contextualizar, descodificar. Não cabe ao jornalista ser oráculo ou árbitro moral, mas sim ajudar a sociedade a compreender os factos em toda a sua complexidade. A humildade de reconhecer o “quase nada de quase tudo” é o que distingue o jornalismo como serviço público e não como espetáculo.

Se Bourdieu e Boniface permanecem tão atuais, é porque os seus alertas foram ignorados. A crítica à superficialidade e ao domínio dos pseudoespecialistas não era apenas uma análise do final do século XX; é uma radiografia precisa do presente. Se nada mudar, corremos o risco de assistir a uma degradação irreversível do debate público — transformado em ruído, em vez de conhecimento.

A Frota Fantasma Russa e o Fim do Monopólio Ocidental no Mar

 

Quando o G7 e a União Europeia decretaram o embargo ao petróleo russo e o teto de 60 dólares por barril, em 2022, a estratégia parecia sólida: cortar as receitas do Kremlin e isolar Moscovo do sistema financeiro global. Três anos depois, o resultado é ambíguo. A Rússia perdeu parte do seu rendimento energético, mas criou uma estrutura paralela de comércio marítimo — a chamada frota fantasma — que não só dribla as sanções como está a reconfigurar o mapa económico mundial.

Trata-se de uma frota de mais de 400 petroleiros, operados por empresas de fachada sediadas em Dubai, Hong Kong e Seychelles, registados sob bandeiras de conveniência e segurados por entidades russas como a Ingosstrakh. Estes navios desligam os transponders, fazem transferências de carga no alto-mar e vendem crude russo acima do preço-limite ocidental a compradores na China, Índia e Turquia, onde as sanções simplesmente não se aplicam. A frota move-se num espaço jurídico cinzento, onde a proibição se aplica à área de jurisdição do Ocidente, mas legal no resto do mundo.

A ideia das sanções assentava num sistema que, até agora, detinha o controlo do transporte marítimo dependente de uma infraestrutura ocidental — armadores europeus, seguros londrinos, e bancos americanos. Foi sobre essa dependência que o G7 construiu o mecanismo do price cap: só navios com seguro e financiamento ocidentais podem transportar petróleo russo abaixo do limite imposto. O que Moscovo fez foi criar um circuito alternativo: frota própria, seguro estatal, bancos não-ocidentais e liquidações em yuan ou rupias.

Na verdade a frota não é fantasma porque desapareça (embora em alguns navios desliguem os transponders que indicam a sua localização), mas porque o Ocidente não controla o registo dos seus proprietários, as suas rotas e mercadorias e, sobretudo, às suas transações.

O resultado é duplo. Por um lado, o gargalo financeiro imposto pelo Ocidente cortou cerca de 56% das receitas russas desde 2022, reduzindo o orçamento de guerra. Por outro, a frota fantasma garantiu a continuidade do comércio, fazendo chegar petróleo russo a novos mercados e inspirando outros países sancionados — Irão, Venezuela ou Myanmar — a seguir o mesmo modelo.

Mas o impacto mais profundo é estrutural. A combinação de sanções e contra-sanções desencadeou um movimento de desocidentalização do comércio global. Em 2025, quase 70% das exportações russas são negociadas em yuan, o dólar perdeu peso nas reservas internacionais, e emergem alternativas à hegemonia financeira ocidental: o sistema de pagamentos CIPS, o Asian P&I Alliance e as bolsas de mercadorias de Xangai e Dubai, que rivalizam com Londres e Nova Iorque. A China, a Índia e os BRICS constroem, na prática, um mercado paralelo, onde o Ocidente já não dita as regras.

A Europa, entretanto, paga um preço elevado. O fim do fornecimento energético russo custou-lhe mais de 950 mil milhões de euros em energia mais cara e substitutos, agravando a inflação e acelerando a desindustrialização. A Rússia perdeu receitas; a Europa perdeu competitividade. E o comércio mundial caminha para uma fragmentação duradoura.

A frota fantasma é, assim, o sintoma visível de uma transformação invisível: o declínio do monopólio ocidental sobre o transporte, o seguro e o financiamento marítimo. As sanções pretendiam enfraquecer Moscovo, mas acabaram por dar forma ao protótipo de um novo sistema económico multipolar, menos dependente do dólar e mais resistente ao controlo geopolítico do Ocidente.

Em linguagem simples: a Europa quis punir a Rússia e acabou a financiar o mundo dos BRICS. O “fantasma” que hoje navega no Báltico e no Índico é, afinal, o prenúncio do fim de uma era — a era em que o comércio global obedecia a um só centro de poder.

quinta-feira, setembro 18, 2025

Geração Z: a ambição que desafia o mundo do trabalho

 

A Geração Z entra no mercado de trabalho com a mesma pressa com que desliza o dedo no ecrã de um smartphone: rápida, inquieta, ávida de movimento. O relatório da Randstad mostra que estes jovens permanecem, em média, apenas 1,1 anos em cada emprego — um tempo que choca as empresas ainda agarradas ao mito da “lealdade” como valor absoluto. Mas será deslealdade ou apenas um reflexo de um mundo que já não oferece percursos lineares nem carreiras previsíveis?

O que o estudo revela é que os jovens mudam não por desinteresse, mas por ambição. O problema não está na vontade de progredir, mas na falta de oportunidades de entrada e de progressão clara. Desde 2024, as vagas para funções júnior caíram quase 30%, com particular severidade na tecnologia, nas finanças e na logística. A mensagem que o mercado envia é contraditória: exige talento fresco, mas fecha as portas de acesso.

A isto soma-se a sombra da Inteligência Artificial. Se 55% dos Gen Z já recorrem à IA para resolver problemas no trabalho e 75% a utilizam para aprender novas competências, quase metade teme que a mesma tecnologia lhes roube o futuro. É um paradoxo cruel: o instrumento que poderia acelerar carreiras surge também como ameaça. E as desigualdades no acesso à formação, sobretudo entre géneros, ampliam essa ansiedade.

Há quem olhe para esta rotatividade juvenil como sinal de fragilidade. Eu vejo o contrário. Esta geração é, talvez, a mais pragmática de sempre. Cresceu na incerteza e aprendeu cedo que a lealdade unilateral não garante nada. Trabalham bem — 68% esforçam-se por cumprir as funções — mas não hesitam em partir quando sentem que não há lugar para crescer. Não é falta de compromisso, é recusa em desperdiçar tempo.

O desafio não está, portanto, na Geração Z. Está nas empresas que insistem em olhar para estes jovens como problema em vez de como oportunidade. Enquanto continuarmos a exigir-lhes paciência num mercado que já não a recompensa, continuaremos a perder talento para o ciclo da rotatividade.

O que está em jogo é mais profundo: estamos perante a primeira geração verdadeiramente nativa digital a confrontar a precariedade estrutural e a aceleração tecnológica em simultâneo. A forma como lidarmos com a sua ambição dirá muito sobre o futuro do trabalho.

Geração Z: Preguiçosa ou Lúcida?

 

A Geração Z está a recusar o modelo laboral tradicional. Lucidez estratégica ou preguiça? Uma reflexão sobre trabalho, liderança e mudança geracional.

A ideia de que “os jovens já não querem trabalhar” repete-se com a segurança de um provérbio. Diz-se nas redações, nas empresas e até nas entrevistas de líderes empresariais que ainda não perceberam que o mundo do trabalho mudou mais nos últimos dez anos do que em todo o último século. Mas será mesmo desinteresse? Ou será lucidez?

Quem hoje tem vinte e poucos anos cresceu num país em crise quase permanente, viu pais desempregados, familiares emigrados, contratos rasgados e empresas que prometiam carreiras e deixaram dívidas. Entraram no mercado de trabalho a recibos verdes ou em estágios prolongados, num ambiente onde palavras como “progressão” ou “estabilidade” soam mais a piada do que a promessa. E é neste cenário que lhes exigem entrega, entusiasmo e camisolas vestidas.

Curiosamente, quem os acusa de “falta de ambição” são muitas vezes os mesmos que, nas últimas décadas, promoveram uma cultura empresarial baseada em cortes, precariedade e discursos motivacionais de PowerPoint. Esquecem-se que a lealdade se constrói com exemplo, e que nenhum colaborador vai dar mais do que aquilo que recebe — não apenas em salário, mas em respeito, propósito e futuro.

Nas redes sociais e nas conversas de corredor, já se usa o termo em inglês: quiet quitting. Mas não se trata de desistência — trata-se de um novo contrato psicológico. Um pacto silencioso: trabalho sim, mas até onde fizer sentido. Produção, sim, mas com limites. Compromisso, sim, mas não incondicional. Muitos gestores não sabem lidar com isto. Acusam os jovens de falta de empenho, quando o que realmente enfrentam é a consequência direta de uma liderança incapaz de inspirar ou dar rumo.

A verdade é esta: muitos dos que hoje ocupam cargos de chefia continuam presos a modelos de gestão baseados na autoridade, no controle e na chantagem emocional. Confundem exigência com arrogância, confundem lealdade com servilismo. Talvez esteja na hora de se falar — com seriedade — de formação e requalificação profissional. Não para os jovens, mas para alguns líderes. Aqueles que ainda acreditam que uma entrevista de emprego serve para testar submissão, ou que um ordenado baixo se compensa com “bom ambiente”.

Sim, há jovens desinteressados, como sempre houve. Mas há, também, uma geração inteira que não está disposta a sacrificar a saúde mental, os relacionamentos e os seus próprios valores por uma empresa que não sabe onde vai estar amanhã. Não é comodismo. É cálculo. É inteligência emocional aplicada ao mundo laboral.

A questão, portanto, já não é se a Geração Z está preparada para o mercado de trabalho. A verdadeira questão é se o mercado — e muitos dos que o lideram — estão preparados para uma geração que não tem medo de dizer que o rei vai nu.

 

(artigo publicado originalmente em www.empreendedor.com)

sábado, agosto 02, 2025

Alemanha: As Cicatrizes da Unificação

Trinta e cinco anos após a queda do Muro de Berlim, a Alemanha continua dividida. A fronteira desapareceu do mapa, mas não da memória. A chamada “reunificação” alemã, celebrada como um triunfo da liberdade e da integração europeia, revela-se, com o distanciamento do tempo, menos como um pacto entre iguais e mais como uma ocupação administrativa, simbólica e económica da Alemanha de Leste. O que se prometeu como reencontro nacional degenerou, para muitos cidadãos orientais, numa longa transição marcada por perda, desvalorização e exclusão.

O contexto e a pressa

A reunificação, formalizada a 3 de outubro de 1990, foi conduzida sob forte pressão interna e internacional. Helmut Kohl, com o apoio decisivo dos Estados Unidos, capitalizou o colapso acelerado da RDA para impor uma integração unilateral. Através do artigo 23 da Lei Fundamental da RFA, os territórios da antiga RDA foram absorvidos sem revisão constitucional nem consulta popular significativa. O modelo ocidental foi transplantado — completo e intacto — para uma população que nunca o tinha vivido, e que não participou na sua definição.

Rapidamente, a elite política e administrativa da RDA foi substituída. As instituições desapareceram. As empresas estatais foram encerradas ou vendidas a retalho pela Treuhandanstalt. A moeda, o marco ocidental, foi imposta numa conversão artificial que condenou a produção local à falência imediata. Tudo o que não cabia no modelo da RFA foi descartado, como se a RDA tivesse sido um erro histórico a apagar. O resultado foi uma desindustrialização sem precedentes, um êxodo em massa, desemprego crónico e um sentimento generalizado de humilhação identitária.

Unificação ou ocupação?

A semelhança com outros processos de integração assimétrica é gritante. Tal como o Vietname do Sul foi absorvido e anulado pelo Norte comunista, ou como a África do Sul pós-apartheid integrou simbolicamente os negros na cidadania política mas manteve intocadas as estruturas económicas da minoria branca, também na Alemanha a unificação não foi partilha, mas imposição.
Menos de 5% das elites institucionais alemãs são hoje originárias da ex-RDA. Nos tribunais superiores, ministérios, universidades, media ou forças armadas, os orientais continuam ausentes. A representação política é igualmente desigual. A experiência de vida na RDA foi deslegitimada, a sua cultura ridicularizada, e o seu legado sistematicamente omitido da memória oficial.

A resposta a este apagamento tem sido o ressentimento. O Leste vota diferente, confia menos nas instituições e acredita cada vez menos na promessa europeia. A Alternativa para a Alemanha (AfD) conquista hoje, nos estados orientais, entre 25% e 35% do eleitorado — ultrapassando os partidos tradicionais. Este crescimento não é um acidente demográfico: é a expressão de uma bomba social que vem sendo armada há décadas, sob a forma de estigmas sociais, desigualdade estrutural e ausência de reconhecimento.

O que está por fazer

O que falta não é apenas investimento económico — é reconhecimento simbólico. Falta uma narrativa comum que incorpore a história da RDA sem reducionismos, sem a caricatura da ditadura ou a romantização do passado. Falta integrar, verdadeiramente, os cidadãos do Leste na definição do que é ser alemão. Mas tudo indica que essa reconciliação não acontecerá. O Estado federal mantém o seu modelo centralizado. A União Europeia limita-se a aplaudir os indicadores macroeconómicos, sem ver o que fermenta nas regiões desertas, nas urnas ou no discurso político das novas gerações orientais.

A Alemanha está hoje mais rica, mais poderosa, mas não mais unida. O projeto europeu assenta numa narrativa de reconciliação e progresso, mas ignora que no seu coração existe uma fratura interna não resolvida, com potencial para contaminar o continente. O desconforto alemão não é apenas uma questão nacional: é um sintoma europeu. E se continuar a ser ignorado, acabará por rebentar — não com estrondo, mas com erosão lenta e inexorável.


segunda-feira, julho 21, 2025

Jornalismo | Mediar ou Opinar?

 

Há uma frase que costumo repetir sobre a minha profissão: os jornalistas sabem quase nada de quase tudo. Longe de ser uma autocrítica, é uma constatação sóbria da natureza paradoxal do ofício: exige-se ao jornalista que trate, com clareza e urgência, temas que especialistas levam décadas a dominar. Essa condição não é uma falha — é parte da sua utilidade pública. Mas também exige que o jornalista saiba onde começa o seu limite.

O problema começa quando essa consciência se perde — e o que era um exercício de mediação se transforma num palco de opinião. Refiro-me ao fenómeno do jornalista-comentador, cada vez mais presente nos espaços de rádio e televisão, que discorre com igual convicção sobre finanças públicas e geopolítica, decisões judiciais e estratégias de saúde, política externa e política educativa. A figura que deveria facilitar o entendimento transforma-se num emissor de certezas.

Mesmo nos casos — poucos — em que o jornalista possui formação académica ou experiência prolongada numa área específica, o seu papel não é o de perito. O jornalista serve a compreensão pública, não a legitimação de teses. O seu dever é esclarecer, contextualizar e apresentar diferentes vozes. Confundir este papel com o de especialista é, além de imprudente, um risco para a qualidade do debate democrático.

Walter Lippmann, um dos teóricos fundadores do jornalismo moderno, já advertia para o perigo dos pseudoambientes — simplificações inevitáveis que permitem ao público interpretar um mundo demasiado complexo para ser conhecido diretamente. Mas Lippmann alertava também que, se o filtro jornalístico abdicar do rigor e ceder à dramatização ou à velocidade, torna-se instrumento de manipulação e não de esclarecimento.

É tentador opinar. Requer menos trabalho do que explicar. Exige menos escuta e mais protagonismo. Mas é justamente esse protagonismo que deve ser combatido. Quando o jornalista se coloca no centro do palco e abandona a mediação, deixa de cumprir a sua função essencial: ser uma ponte entre o conhecimento e o cidadão.

Num tempo em que a desinformação e o ruído competem com a verdade, o jornalismo não precisa de mais opinião travestida de análise. Precisa de mais humildade, mais escuta e mais compromisso com a transparência. Mesmo sabendo quase nada de quase tudo, o jornalista pode — e deve — continuar a ser útil, desde que reconheça que a sua força está, precisamente, na honestidade desse limite.

terça-feira, julho 15, 2025

IA e universidades: regressar à Academia, não ao claustro

 

Na sua coluna publicada no El Mundo a 13 de julho de 2025, o historiador Niall Ferguson alertou para o impacto destrutivo da inteligência artificial no ensino superior. O diagnóstico é certeiro: a proliferação de ferramentas como o ChatGPT está a corroer as bases do pensamento académico, transformando a universidade num espaço de produção automática e não de formação intelectual. Mas a solução que propõe — um modelo dual entre um “claustro” analógico e uma “nave” digital — erra no essencial: o problema da universidade contemporânea não é o excesso de IA, é o défice de pensamento vivo.

A geração universitária atual não escreve menos apenas porque tem IA — escreve menos porque já pensava pouco antes disso. A tecnologia apenas acelerou um processo de desvalorização do debate, da dúvida e do esforço argumentativo. O que falta nas universidades não é isolamento digital, mas reconexão com o espírito da Academia de Platão: aprender caminhando, dialogando, contrariando com inteligência.

Sim, o uso da IA tornou obsoletos os trabalhos escolares tradicionais. Mas isso só reforça a urgência de reinventar os métodos pedagógicos. Em vez de testes de repetição, o ensino deve promover a formulação de perguntas, a construção de hipóteses e o confronto de ideias. A escrita continua a ser essencial — mas como consequência do pensamento, não como substituto dele.

A proposta de Ferguson, publicada originalmente em inglês no The Times (4 de julho), é provocadora e útil para reacender este debate. Mas transformar universidades em simulacros de mosteiros não devolverá aos estudantes o que perderam. O que pode, sim, devolver-lhes é a palavra partilhada — esse gesto antigo, mas insubstituível, que ainda distingue o humano do automatizado.

quinta-feira, junho 19, 2025

O Desafio dos Media Tradicionais na Era da Fragmentação Informativa

 

O Digital News Report 2025, do Reuters Institute, publicado em 19 de junho de 2025, volta a traçar um retrato preocupante sobre o estado do jornalismo no mundo: confiança em queda, crescente fadiga informativa e proliferação de desinformação. Um fenómeno global que se manifesta com particular intensidade em países como o Brasil, mas que também interroga os media portugueses sobre o seu papel e futuro.

A edição deste ano, baseada em mais de 90 mil inquiridos em 48 mercados, confirma o que os dados anteriores já indicavam: o declínio da influência dos media tradicionais está a acelerar. O consumo de notícias via televisão, rádio ou imprensa escrita continua a cair, enquanto as redes sociais e plataformas de vídeo (como YouTube, TikTok e Instagram) assumem um papel cada vez mais dominante, sobretudo entre os mais jovens. Este "desvio de atenção" favorece criadores de conteúdos, influenciadores e figuras políticas, muitas vezes descomprometidos com práticas jornalísticas rigorosas.

“A dependência de redes sociais e agregadores online está a crescer, ao mesmo tempo que o envolvimento com fontes noticiosas institucionais continua a cair”, lê-se no sumário executivo do relatório.

Em paralelo, verifica-se um fenómeno preocupante: a fadiga informativa. A média global de pessoas que evitam frequentemente as notícias situa-se nos 39%, com valores mais altos em mercados onde as notícias são percecionadas como demasiado negativas ou politicamente tóxicas. Este cansaço favorece a apatia e, paradoxalmente, reforça o espaço de manobra para narrativas desinformativas.

Portugal: Estável, mas não imune

No caso português, o cenário é menos grave, mas longe de ser tranquilizador. A confiança nas notícias mantém-se estável nos 56%, um dos valores mais altos da Europa, o que demonstra uma resiliência do sistema mediático nacional. No entanto, 36% dos portugueses dizem evitar as notícias com frequência, uma subida em relação a anos anteriores.

O acesso às notícias continua a fazer-se principalmente através do telemóvel, com o Facebook, YouTube e WhatsApp como principais portas de entrada. Ainda assim, os sites e apps noticiosas mantêm uma base significativa de utilizadores. A RTP é considerada a marca mais fiável, mas o seu alcance entre os mais jovens é limitado.

A baixa disposição para pagar por notícias (11%) levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do setor, num contexto de crescente fragmentação das audiências.

Brasil: O laboratório da fragmentação

O Brasil é apontado no relatório como um dos casos mais extremos de perda de confiança e fragmentação informativa. Apenas 34% confiam nas notícias. Mais de metade dos inquiridos (54%) evita ativamente o consumo informativo, o que coloca o país entre os que mais expressam fadiga noticiosa. As redes sociais, com destaque para o WhatsApp, YouTube e Instagram, são as fontes dominantes.

A polarização política alimenta este cenário. A desconfiança nos media tradicionais e a ascensão de figuras controversas e influenciadores políticos contribuem para um ambiente propício à circulação de desinformação. Com apenas 6% dos brasileiros a pagar por notícias online, os media enfrentam dificuldades acrescidas para manter a independência editorial.

PALOP: Oportunidades e assimetrias

Nos países africanos de língua portuguesa (PALOP), o relatório indica níveis ainda baixos de consumo digital, mas uma transição crescente em meios urbanos. Em países como Angola e Moçambique, o acesso à informação digital é condicionado pela infraestrutura e custos de conectividade, mas o uso do telemóvel e das redes sociais para consumo noticioso está a crescer.

A ausência de dados detalhados impede uma análise profunda, mas o potencial de desenvolvimento de media digitais independentes e a ausência de sistemas mediáticos robustos colocam estes países num ponto crítico — entre o risco da desinformação e a oportunidade de inovação.

Que caminhos para os media tradicionais?

O Digital News Report 2025 sugere que, face à fragmentação, os media tradicionais devem reposicionar-se como fontes fiáveis e acessíveis, sobretudo junto das gerações mais novas. Entre as estratégias mencionadas:

  • Personalização responsável de conteúdos com recurso a IA, desde que com supervisão humana, para garantir transparência e confiança;
  • Exploração de novos formatos audiovisuais, nomeadamente vídeos curtos e podcasts, ajustados aos hábitos de consumo contemporâneos;
  • Modelos de subscrição mais flexíveis, como “bundles noticiosos”, adaptados a públicos relutantes em pagar por conteúdos individuais.

“Apesar de tudo, as marcas noticiosas fiáveis continuam a ser a principal referência para verificar informações online, inclusive entre os mais jovens”, reforça o relatório.

A resposta à crise de confiança e à fadiga informativa não passa por competir com os criadores de conteúdos no seu próprio terreno, mas sim por reafirmar os princípios do jornalismo com novas linguagens e canais, sem abdicar do rigor e da verificação.

quarta-feira, junho 11, 2025

Fact-checking ou fact-marketing? Quando o Polígrafo ajuda a espalhar a desinformação que diz combater

 

Nos últimos anos, plataformas de fact-checking como o Polígrafo tornaram-se atores centrais no ecossistema mediático português. Reclamando para si a missão de “verificar os factos” e “combater a desinformação”, estas entidades conquistaram legitimidade institucional, presença nos grandes meios e, sobretudo, a confiança de um público preocupado com a verdade. No entanto, importa perguntar: estarão realmente a cumprir esse papel ou, paradoxalmente, a amplificar aquilo que procuram neutralizar?

Uma análise crítica à forma como o Polígrafo estrutura os seus conteúdos levanta sérias dúvidas. Com frequência, os títulos e aberturas dos artigos reproduzem — com grande destaque — a mensagem falsa ou enganadora, remetendo a sua refutação para os parágrafos finais. Ao fazer isso, ainda que não intencionalmente, alimentam o chamado efeito da influência contínua (continued influence effect), identificado por vários estudos em psicologia cognitiva.

O erro que persiste depois da correção

Segundo Stephan Lewandowsky e Ullrich Ecker, dois dos principais investigadores na área da desinformação, a correção de uma informação falsa raramente elimina o seu impacto, sobretudo se essa correção vier tarde, for ambígua ou menos saliente do que a mensagem original. Em vez de neutralizar o erro, o que acontece é que a informação inicial (neste caso, a mentira que o fact-check procura desmontar) permanece ativa na memória, influenciando julgamentos futuros — mesmo quando a pessoa se recorda da correção (Lewandowsky et al., 2012).

Este fenómeno é ainda mais perigoso quando a desinformação é apresentada logo no título ou nas primeiras linhas do artigo. Como bem demonstraram Pennycook e Rand (2019), o simples ato de repetir uma alegação — mesmo para a desmentir — pode torná-la mais familiar, e por isso mais credível, sobretudo junto de leitores distraídos ou em leitura superficial, como é comum nas redes sociais.

É exatamente este o padrão de muitos artigos do Polígrafo. A peça começa por destacar, sem reservas, a frase ou imagem falsa ("Político X disse que os imigrantes recebem mais do que os reformados"), e só depois de vários parágrafos surge o veredito: "Falso", "Impreciso" ou "Descontextualizado". Até lá, o leitor já absorveu — e muitas vezes partilhou — a narrativa errada.

Correção tardia, dano feito

As organizações de fact-checking têm justificado este modelo com o argumento da “transparência editorial” ou da necessidade de apresentar “o que está a ser verificado”. Contudo, isso ignora uma realidade central: o que é lido primeiro é o que mais marca. Como alertam Fazio et al. (2015), a nossa mente tende a reter mais facilmente a informação familiar e emocionalmente marcante — e a desinformação, por definição, é quase sempre construída para cumprir esses critérios.

Mais grave ainda: este tipo de construção pode funcionar como uma janela de oportunidade para a viralização da mentira, validada pelo prestígio da própria plataforma que a denuncia. A leitura apressada de um fact-check que começa com a frase errada e termina com um “falso” pouco visível é, para muitos utilizadores, indistinguível de um conteúdo jornalístico comum — contribuindo assim para o reforço do erro original.

Polígrafo ou amplificador? Uma crítica necessária

Não se trata aqui de pôr em causa a necessidade de verificar factos — pelo contrário. Trata-se de criticar uma forma específica de verificar, que ignora as evidências da psicologia cognitiva e os riscos de reprodução da falsidade. Plataformas como o Polígrafo têm a responsabilidade acrescida de compreender como funciona a memória, como se propagam as ideias, e sobretudo, como não perpetuar aquilo que dizem combater.

Como sugerem Lewandowsky e Cook no "Debunking Handbook 2020", as boas práticas de fact-checking passam por:

  • Evitar repetir a desinformação sem necessidade;
  • Dar destaque à correção, não ao mito;
  • Oferecer uma explicação alternativa clara e fácil de memorizar;
  • Usar linguagem simples e visualmente apelativa;
  • Prevenir, sempre que possível, com inoculação prévia (prebunking).

Estas práticas, infelizmente, estão longe de ser norma em muitos dos conteúdos publicados. Quando o jornalismo abdica da pedagogia em nome do clique, não é a verdade que vence: é a mentira que muda de roupa e continua a circular, legitimada por quem deveria travá-la.

Combater a desinformação é mais do que desmentir

Não basta desmentir a mentira — é preciso desmontar o seu apelo. E isso começa na forma como a estrutura informativa é apresentada. Se o fact-check repetir a falsidade com o mesmo destaque e dramatismo que a notícia enganosa, então transforma-se num instrumento de propagação involuntária da desinformação.

O jornalismo de verificação não pode funcionar com as mesmas lógicas de sedução que o jornalismo sensacionalista. Se o objetivo é educar, esclarecer e proteger o espaço público, é preciso colocar a verdade no centro — não como nota de rodapé, mas como abertura.

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Referências:

sexta-feira, maio 23, 2025

Censura Moderna: Quando a Liberdade se Torna Ilusão

 


 Censura Moderna: Quando a Liberdade se Torna Ilusão

Vivemos numa era onde se proclama a liberdade de expressão com pompa e circunstância, mas a realidade mostra-nos uma tendência oposta: uma censura disfarçada, subtil, porém cada vez mais poderosa. O jornalista Lorenzo Ramírez, em declarações à plataforma de notícias espanhola, Negocios TV, denuncia esta inversão de princípios com lucidez. Segundo ele, estamos a assistir a um sequestro não só da liberdade de expressão, mas também – e antes de tudo – da liberdade de pensamento.

Ao contrário dos regimes totalitários clássicos, que justificavam a repressão em nome da segurança nacional ou da luta contra traidores, hoje a censura surge camuflada sob o manto da defesa da democracia. Não se proíbe diretamente. Move-se a janela de Overton – o leque de ideias socialmente aceitáveis – até que qualquer desvio se torne impensável, e portanto, irrelevante. As pessoas aprendem a calar-se, não porque lhes é imposto, mas porque desconhecem que existe outra forma de pensar.

Ramírez aponta como exemplo o discurso de Ursula von der Leyen em Davos, onde a “desinformação” foi apontada como um dos maiores obstáculos à governação global. Esta palavra tornou-se a nova desculpa para intervir, censurar e controlar. Em nome da verdade, apagam-se vozes. Em nome do bem comum, molda-se o pensamento. E tudo isto com uma sofisticação assustadora: projetos como o “Elisa”, em Espanha, ilustram como os serviços de inteligência são hoje atores ativos na guerra contra as opiniões divergentes.

A ciência, antes espaço privilegiado para o debate, é outro terreno capturado. Durante a pandemia, ou no debate climático, quem desafia o guião oficial é afastado, perde financiamento, reputação e visibilidade. A lógica da verdade contra a mentira foi invertida: já não se desmonta o erro com argumentos, silencia-se a crítica.

Isto é possível, diz Ramírez, porque o poder já não se apresenta em forma de força bruta, mas de controlo tecnocrático. Quem detém o financiamento da investigação, a publicidade dos media, a moderação das redes sociais e os algoritmos das grandes plataformas, detém a narrativa – e a capacidade de excluir os dissidentes. Esta aliança entre elites políticas, tecnocratas e corporações não precisa de censurar diretamente. O silêncio é induzido por exclusão e medo.

A verdadeira batalha, contudo, não acontece nas cúpulas. Está nas conversas de café, nos jantares em família, nos silêncios cúmplices entre amigos. Se aí não se ousa dizer o que se pensa, se o medo do “politicamente incorreto” amordaça, então já não é preciso polícia do pensamento – o cidadão tornou-se censor de si mesmo.

Ramírez lança um apelo: duvidem. Questionem as verdades únicas. Recusem-se a ser apenas consumidores de narrativas embaladas. A dúvida não é um luxo; é a essência da liberdade intelectual. E é esta dúvida que impede que, tal como no romance 1984 de Orwell, as pessoas acabem a rezar para que lhes digam o que devem pensar.

Hoje, a censura é sofisticada. É digital, psicológica, económica. Mas é real. E enquanto acreditarmos que somos livres apenas porque ninguém nos cala à força, estaremos a abdicar dessa liberdade sem sequer nos apercebermos.

quinta-feira, maio 22, 2025

Do Ser ao Ter — e ao Saber?

 


Uma leitura histórica das transformações do poder

Introdução

Ao longo da história, o conceito de poder e os critérios que o legitimam têm sofrido transformações profundas. Em determinados períodos, o poder assentou no nascimento e na linhagem; noutros, no capital acumulado. Hoje, há indícios de que uma nova transição está em curso. Este ensaio propõe uma leitura histórica dessas mutações, formulando a hipótese de que caminhamos para uma era em que o saber será o principal fundamento do poder social e político.

 

I. A era do Ser: o poder da linhagem

Até ao final do Antigo Regime, o poder social era sobretudo uma questão de ser. Ser nobre, ser clero, ser rei. O estatuto era herdado, imutável e inscrito na estrutura feudal e estamental que organizava as sociedades europeias.

O nascimento determinava o acesso ao poder político, à justiça e até ao conhecimento. A aristocracia não precisava de justificar a sua posição — ela era ontológica: o poder estava no ser.

Como observou Tocqueville ao analisar o Antigo Regime francês, a sociedade pré-revolucionária assentava numa rigidez social extrema, onde os privilégios se transmitiam por sangue e estatuto, não por mérito ou realização.

Este sistema produziu uma elite fechada, cuja legitimidade vinha de títulos, brasões e prerrogativas conferidas por uma ordem transcendente. A mudança era rara, a mobilidade quase inexistente. O poder era um atributo existencial — um dado adquirido, não uma conquista.

 

II. A era do Ter: o poder do capital

Com as revoluções liberais dos séculos XVIII e XIX — em particular a Revolução Francesa — essa ordem foi radicalmente posta em causa. O colapso do sistema estamental abriu espaço a uma nova elite emergente: a burguesia.

O critério de poder passou a ser ter: ter capital, ter propriedade, ter meios de produção.

As democracias liberais do século XIX nasceram sob esta nova matriz. O sufrágio censitário, por exemplo, restringia o voto a quem tinha rendimento. A lógica capitalista da modernidade industrial assentou-se na ideia de que a posse, o investimento e o consumo constituem as novas formas de poder.

Max Weber reconheceu este fenómeno ao distinguir a “ética protestante” como um dos motores da acumulação capitalista e da racionalização económica que deu origem ao capitalismo moderno. O poder tornou-se fluido, mas não igualitário: transitava de mãos, mas ainda exigia acesso ao património.

A era do Ter também institucionalizou novas hierarquias: o mercado como árbitro da relevância social, a meritocracia como narrativa de ascensão e o crédito como alavanca de mobilidade. O Ter passou a medir sucesso, influência e até dignidade.

 

III. A era do Saber?

No final do século XX e início do XXI, assistimos a uma mutação mais subtil, mas potencialmente mais profunda. O capital continua a ser importante — mas já não é suficiente.

Num mundo cada vez mais digital, hiperconectado e tecnologicamente complexo, quem detém o saber detém o poder real de transformação. Não se trata apenas de conhecimento académico, mas de competência estratégica, técnica, criativa, adaptativa.

Um programador solitário pode redesenhar o funcionamento de um mercado.
Um cientista pode antecipar riscos globais.
Um líder de pensamento pode mobilizar milhões com ideias.

Como sugeriu Peter Drucker, estamos a entrar numa “sociedade do conhecimento”, onde os activos mais valiosos são intangíveis: dados, capacidades cognitivas, inovação.

A ascensão das chamadas “elites cognitivas” — engenheiros, empreendedores, especialistas em IA, estrategas digitais — mostra que o poder já está a migrar para mãos que sabem mais, não apenas que têm mais.

Este fenómeno torna-se ainda mais evidente com o avanço da inteligência artificial. A IA não elimina o papel humano — transforma-o. Quem souber interagir eficazmente com sistemas de IA, formular boas perguntas, validar resultados e aplicar essas soluções ao mundo real, torna-se indispensável. O saber, neste contexto, já não é apenas possuir informação, mas compreender, filtrar, e aplicar esse conhecimento com sentido crítico e visão estratégica.

Dominar a IA não será apenas uma questão técnica — será uma questão de poder. Saber como construir, interpretar e utilizar modelos de IA tornar-se-á tão determinante quanto saber ler ou escrever foi noutros períodos da história.

 

IV. Consequências políticas e sociais

Tal como o embate entre aristocracia e burguesia conduziu às grandes revoluções modernas, a tensão entre o Ter e o Saber poderá configurar novos conflitos. As estruturas de representação política ainda reflectem lógicas de propriedade e capital, mas a influência efectiva está cada vez mais nas mãos de quem compreende, prevê e molda os sistemas complexos que regem o século XXI.

A eventual transição para uma era do Saber não é necessariamente democrática. O acesso ao conhecimento avançado é desigual. A nova aristocracia cognitiva poderá replicar formas de exclusão e desigualdade se não forem criados mecanismos de partilha e inclusão.

A concentração do saber em plataformas tecnológicas, centros de dados ou empresas de alta complexidade pode levar a novas formas de dependência e despotismo algorítmico. A literacia digital e cognitiva tornar-se-á, por isso, um requisito cívico fundamental — talvez o mais importante do nosso tempo.

 

Conclusão

Da aristocracia hereditária ao capitalismo financeiro, a história do poder revela padrões de substituição e reinvenção. Hoje, vivemos possivelmente o início de uma nova transição — da era do Ter para a era do Saber.

A questão não é apenas quem sabe mais, mas como será redistribuído esse saber, e que legitimidade terá para exercer o poder.

Se, como em 1789, estivermos perante uma ruptura histórica, o futuro não será apenas uma evolução técnica — será uma redefinição do que consideramos justo, legítimo e desejável.

 

segunda-feira, novembro 14, 2016

O medo da Democracia

O terror que provocou a vitória de Trump tem levado muita gente a imaginar as piores consequências das loucuras futuras do próximo presidente norte-americano.
Correndo o risco (infundado) de vir a ser considerado um adepto das politicas xenófobas de Trump, eu sublinho que o que me preocupa mais são o que dizem aqueles que se apresentam como críticos do oligarca americano. 

Dizer que "as democracias representativas estão a ser minadas pelas redes sociais que destroem qualquer ideia de racionalidade. São elas que marcam o ritmo, definem os assuntos, condicionam os meios de comunicação tradicionais", como defendeu Teresa de Sousa no seu artigo de opinião do Publico além de perigoso é incoerente, vindo da parte de quem defendeu o papel dessas redes sociais nas revoluções da primavera árabe ou ucraniana. 

Mas o mais grave é que esta afirmação não parte de uma reflexão da autora, mas repete uma ideia difundida pela comunicação social internacional desde o dia 9 de Novembro. Ela faz parte (e é a prova) de uma estratégia concertada de manipulação da opinião através dos media e que levou mesmo o Facebook a emitir um comunicado (não por causa da Teresa Sousa, evidentemente) desmentindo a ideia de que as redes sociais tinham sido as causadoras da derrota de Hillary Clinton. 

As redes sociais veiculam (e veicularam) informação verdadeira e falsa, do mesmo modo que os media. Seria mesmo muito interessante que os académicos de Comunicação, Jornalismo e Sociologia se debruçassem sobre a forma como estas eleições norte-americanas foram noticiadas pelos globais ou nacionais para perceber quem destrói a ideia de racionalidade e marca o ritmo da notícia definindo os assuntos e condicionando os leitores. 
Ignorar isso e fazer das redes sociais as responsáveis pela tragédia norte-americana é não perceber nada de Democracia.

O que estas eleições norte-americanas demonstraram é que, pela primeira vez, os media têm um rival que pode mostrar uma visão alternativa àquela que é reflectida pela comunicação social. É isso que preocupa os actuais manipuladores dos media. O que eles dizem - e Teresa de Sousa repete - é que isso é perigoso e deve (pressupõe-se) ser controlado.

terça-feira, outubro 20, 2015

A Guerra da Propaganda


Um leitor atento de jornais certamente que já terá notado padrões de comportamento dos media onde alguns temas interessam a uns jornais mais do que a outros. Não estou a falar de jornais de desporto, económicos ou de política, mas de certas notícias que se desenvolvem como um folhetim, com o seu novo episódio a cada dia, geralmente tratado como uma ‘cacha’ jornalística, ainda que o tema não interesse de igual forma a outros jornais.

Poderíamos dizer que tais notícias se devem a ‘fontes bem colocadas’ a que só esse jornal tem acesso, o que seria verdade se não fosse o caso de, sempre que surge alguma notícia com sinal diverso daquele para que as ‘fontes bem colocadas’ apontam, o jornal as ignorar, ou remetendo-as para algum recanto discreto nas suas páginas interiores.

Usar os media para veicular ódios particulares não é novo, já Eça de Queirós nas suas farpas referia alguns jornalistas que filavam as suas ‘vítimas’ por simples vaidade ou vingança pessoal. Naturalmente que o leitor interessado encontrará nos dias de hoje bons exemplos do que digo.

Esse tipo de jornalismo não é exclusivo da imprensa sensacionalista. Mesmo a chamada imprensa ‘séria’ não escapa à manipulação organizada pelos seus próprios jornalistas com o objetivo de favorecer interesses pessoais, ou retribuir serviços de ‘fontes bem informadas’. Acontece por exemplo em tempos de formação de governos, quando a imprensa aponta nomes de ‘ministeriáveis’ com o propósito de destacar as qualidades de algumas das pessoas que são fontes do jornal. Do mesmo modo, outras personalidades são citadas como tendo sido ‘sondadas’ com o propósito de as ‘queimar’, perante quem sabe que não as convidou.

Esta manipulação da informação pelos seus próprios agentes (jornalistas e diretores) tem-se tornado mais evidente nas últimas semanas do período pós-eleitoral. Uma onda de propaganda – claramente orientada para criar um clima de suspeição – tem enchido os jornais com editoriais e artigos de opinião dos seus próprios jornalistas.

Naturalmente que não há mal nenhum em que os jornais tomem uma posição política. É melhor até que se assumam de direita ou de esquerda, que apoiem este ou aquele candidato, do que pretenderem fazer-se passar por isentos quando na realidade não o são. Ao menos, daquela forma, os leitores sabem ao que vão. O problema é mais grave quando, no afã de ver realizados os seus desejos ou de fazer passar os dos outros, os media se tornam agentes de desinformação, espalhando boatos ou omitindo informação.

Há algum tempo, um profissional da comunicação, cuja memória respeito, disse que eleger um político “é como vender sabonetes”. Foi um lamentável lapso, no contexto em que a afirmação foi proferida, porém ela é infelizmente verdadeira.

A comunicação social tem um papel relevante na capacidade de influenciar as decisões dos eleitores, quer para eleger quer para demitir governos. Esse poder resulta não da sua habilidade de condicionar a capacidade de decisão dos cidadãos, mas na sua credibilidade. Porém, a credibilidade esgota-se e a mentira tem a perna curta.

Ao alinhar na propaganda, alguns jornalistas podem conseguir alcançar os seus objetivos pessoais, mas a maioria dos leitores perde a confiança nos media. Quando a informação de um jornal não valer mais do que a de um folheto de promoções de supermercado, perdemos todos. E isso, meus amigos, é muito pior do que a censura.



Publicado em Setúbal na Rede 19/10/2015

terça-feira, setembro 22, 2015

Para que servem as sondagens?


Em vésperas de eleições multiplicam-se as sondagens, com os diferentes órgãos de comunicação social a apresentá-las como se fossem resultados definitivos.

Costuma dizer-se que “os números não enganam”, ainda que cada sondagem tenha números diferentes da outra, enganando-se mutuamente. O “taco-a-taco” grego, entre o Syriza e a Nova Democracia revelou-se numa diferença de sete pontos; o “empate técnico” das eleições britânicas acabou numa vitória estrondosa de Cameron. As sondagens enganaram-se quando apontavam a vitória do “sim” nos referendos escocês ou grego, e no fim os eleitores disseram que “não”. Então, se as sondagens erram, para que servem?

Qual é a diferença entre fazer uma sondagem ou lançar os dados? Será melhor encomendar uma pesquisa eleitoral ou um mapa astral?

Naturalmente que as sondagens têm base científica, e são mais fiáveis do que as alternativas apontadas. Mas, afinal porque erram? Os especialistas admitem que uma das causas de erro das sondagens resulta do tamanho da amostra. As amostras pequenas são menos precisas do que as grandes. Ou seja, se o grupo de pessoas sondadas for pequeno, é menos provável que se encontrem todo o leque de diferentes opiniões que se poderiam encontrar em amostras maiores. Por isso é que os pequenos partidos são geralmente subvalorizados pelas sondagens.

Se nas sondagens o tamanho importa, também a forma como é constituída a amostra é decisiva para o resultado. Se a maioria dos elementos da amostra forem apoiantes de um determinado partido, é natural que esse partido acabe beneficiado na leitura dos resultados da sondagem. Para evitar isso é necessário um cuidadoso trabalho de campo, que no final acaba por ser dispendioso.

Talvez a justificação dos erros das sondagens esteja na redução de custos. Para poupar dinheiro corta-se no trabalho de campo, e para conseguir uma proposta competitiva reduz-se o tamanho da amostra. Afinal as sondagens custam dinheiro, e quem as compra – os órgãos de comunicação social – também anda em tempo de vacas magras.

Porém, não é objetivo desta crónica saber porque falham as sondagens. Há especialistas mais habilitados que procuram resposta para esse problema, e uma vasta literatura sobre o assunto sem que, até agora, tenham chegado a um consenso. As causas que apontei poderão ser parte da resposta, mas não são a solução do problema. Por isso volto a questão inicial: Se as sondagens se enganam, para que servem afinal?

Será que as sondagens fazem parte do jogo político para desmotivar o adversário e mobilizar os apoiantes? Pode uma sondagem condicionar o resultado de uma eleição, desincentivando os apoiantes do grupo apontado como derrotado, e contribuindo para que eles acabem por nem sequer ir votar? Um falso “empate técnico” não serve para incentivar os apoiantes do partido que no início era dado como derrotado, e fazendo que a campanha do que à partida era vencedor desmobilize e acabe por perder terreno? Sem dúvida que os teóricos da conspiração encontrarão aqui terreno fértil para desenvolver os seus argumentos, mas também não é por aí que pretendo ir.

A minha pergunta é bem mais simples: Porque é que os jornalistas se deixam enganar pelas sondagens?

As sondagens fazem parte do espetáculo. O circo mediático vive do fogo-de-artifício, esse cintilar de luzes em que se transforma a realidade. Para os jornalistas deste circo, as sondagens já não são previsões, mas a realidade. A verdade absoluta naquele momento. Quer sejam sondagens de empresas credenciadas, quer sejam inquéritos que o jornalista faz na rua ao primeiro “cidadão anónimo” que encontra, ou mesmo as palavras dos comentadores.

Da “Senhora de Cor-de-Rosa” às sondagens de 300 inquiridos, tudo é a Verdade, ainda que efémera, porque amanhã tudo muda. No dia seguinte alguém descobre uma nova Verdade e todos a seguem até que ela se acabe também por desfazer em fumo e outra estrela brilhe no céu.

O jornalista não se deixa enganar pelas sondagens, elas fazem parte do circo. E, neste espetáculo ninguém olha para trás. Ninguém vai recuar para perceber porque se seguiu um caminho errado. A Verdade está lá à frente. Sempre à frente.

As sondagens enganaram-se? Paciência. No Dia do Resultado, lá estarão todos, excitados e com sorrisos, confirmando a nova Verdade e consultando os comentadores que – tal como os oráculos – lançam os búzios e prevêem o futuro. Sempre o futuro, porque ele é o que nós quisermos, enquanto o passado é a causa daquilo em que nos encontramos.

Confesso que sempre que sou sondado dou as respostas mais parvas que me consigo lembrar. Afinal as sondagens servem para quê?



(Publicado em Setúbal na Rede em 21/09/2015)


segunda-feira, julho 27, 2015

Raios e coriscos

Certamente já ouviu a notícia do homem que foi atingido por um raio. Mais tarde, também a filha dele. Ambos sobreviveram e, em seguida, ganharam um milhão de dólares na lotaria. A notícia pertence àquele grupo de acontecimentos que, de tão extraordinários, são notícia em qualquer parte do mundo. Com efeito, “a probabilidade de tudo isto ocorrer é de 1 para 2,6 triliões”, escreveram alguns jornalistas apressados, citando o matemático que se deu ao trabalho de fazer as contas. Foi isto que leu, não foi? Mas está errado.

Não é a conta que está errada, mas a tradução. Ou melhor, a conta tem parcelas tão abstratas que eu não saberei confirmar ou refutar, já o modo como são traduzidas as notícias, de forma apressada – e por vezes incompetente – que caracteriza o jornalismo atual, é posto a nu numa simples notícia de “fait-divers” que habitualmente se entrega ao primeiro estagiário que apareça. O que está errado com a tradução da notícia é o resultado da conta: não são triliões mas biliões, o que não é exatamente a mesma coisa. Entre um e outro há uma diferença de 6 zeros, mas que à direita do número têm claramente outro valor.

A razão do erro está na origem da notícia: os sortudos são cidadãos canadianos, e o cálculo probabilístico foi feito para uma televisão norte-americana. No Canadá, Estados Unidos e na generalidade dos países anglo-saxónicos utiliza-se a Escala Curta para referir grandes números. Em Portugal e na maioria dos países europeus utiliza-se a Escala Longa e isso faz toda a diferença. Com efeito, enquanto a Escala Curta arruma os grandes números por categorias que têm por base potências de mil (milhões, biliões, triliões, etc.), na Escala Longa as categorias têm por base a potência de milhão (milhões, milhares de milhões, biliões, milhares de biliões, triliões, milhares de triliões, etc.).

A língua portuguesa tem ainda a particularidade de usar a mesma palavra para números com significados muito diferentes, uma vez que o Brasil adotou a Escala Curta enquanto Portugal e os restantes países de língua portuguesa utilizam a Escala Longa. Por isso “um bilião”, não é um bilião para todos os falantes de português. Porém, se isso é infelizmente comum quando a notícia é copiada de uma fonte brasileira, no caso dos felizes canadianos, encontrei o mesmo erro na imprensa espanhola, italiana ou alemã.

Esta confusão entre biliões e triliões é muito comum nos media quando se referem a temas económicos e financeiros e geralmente a números tão abstratos, para o comum dos mortais, que uma diferença entre três ou seis zeros é absolutamente irrelevante. Os jornais económicos anglo-saxónicos têm grande influência nos outros órgãos de comunicação europeus, e como se verificou na notícia que refiro, também os jornais de outros países da Europa sofrem da mesma incompetência de alguns dos seus jornalistas, que os congéneres portugueses.

É para evitar esta confusão entre escalas curtas e longas que os bancos europeus utilizam nos seus relatórios a terminologia norte-americana; e mesmo o Reino Unido, a partir do momento em que se tornou uma grande praça financeira, abandonou a escala europeia para abraçar a nomenclatura utilizada pelo capital dos Estados Unidos.

Assistimos assim a uma normalização da terminologia dos grandes números, sustentada na aparente incompetência dos jornalistas em distinguir entre uma escala e outra. Ou o número é importante e deve ser transmitido sem erros, e para isso usa-se a Escala Curta; ou o número é irrelevante, “sobre a probabilidade de ser atingido por um raio e ficar a falar búlgaro”, e aceita-se o erro com um encolher de ombros.

Enquanto no primeiro caso se impõe ao jornalista uma escala com uma medida diferente daquela que é usada no seu país (ainda que a fonte originária da notícia também seja portuguesa), no segundo caso, mais grave, é o jornalista que impõe aos seus leitores ou ouvintes uma escala que ele nem percebe. Dessa forma banaliza-se uma nomenclatura e cria-se a necessidade de uma normalização, ou “Acordo Numérico” para fazer prevalecer como correto o que atualmente não está certo.

Não deixa de ser curioso, no entanto, que muitos daqueles que hoje clamam contra o Acordo Ortográfico, nada digam – ou até mesmo colaborem – desta anexação do significado etimológico. Clamam que um “facto” não é um “fato”, mas não se importam que “um bilião” seja “um trilião”. Quando esse valor representa dinheiro, manda quem o tem e de onde vem. Mesmo que um raio nos caia em cima.


(Publicado em Setúbal na Rede em 27/07/2015)

quarta-feira, julho 01, 2015

Ecos da notícia


Noticiar é mais do que escrever uma notícia, é também escolher o que é – ou não é – noticiado e como essa informação chega ao leitor. Ao leitor cabe-lhe escolher a notícia que considera mais relevante, no órgão de comunicação social que na sua opinião é mais credível, e o texto escrito pelo jornalista que lhe parece mais claro e assertivo.

Dito desta maneira, parece que a diversidade de órgãos de comunicação social permite uma maior variedade, não apenas de pontos de vista sobre uma notícia específica, mas também uma multiplicidade de temas que não seriam notícia noutros jornais ou televisões.

Infelizmente, apesar de vários canais de televisão, algumas rádios, e um número ainda significativo de jornais diários, uma simples observação poderá comprovar que as notícias são as mesmas, mas também a perspetiva em que a notícia é abordada, os intervenientes entrevistados, e por vezes até as frases proferidas são repetidas por todos os canais.

Dir-se-á que este é um país pequeno, e não há assim tantas notícias. É verdade que muitas vezes não há por onde “fugir” ao assunto e, se a notícia é aquela, naturalmente que todos a vão dar. É verdade! Essa no entanto deveria ser a exceção à regra, todavia o mais comum é o contrário.
Quem está mais atento ao que se escreve e diz nos media, certamente reparará na dependência das notícias de agência. Para os que estão pouco familiarizados com a linguagem da comunicação social, explico que uma agência é uma espécie de grossista das notícias, que distribui pelos seus assinantes notícias e fotografias de acontecimentos, e dessa forma permitindo aos clientes da agência encaminhar os seus jornalistas para outras reportagens que farão a diferença relativamente aos outros medias.

O problema é que a crise no setor levou a cortes nas despesas e no pessoal, e os repórteres acabaram por ser dispensados, ou ficar sentados na redação, e as notícias da agência passaram a fazer os conteúdos da maioria dos órgãos de comunicação social. Como em Portugal só há uma agência – a LUSA – é fácil ver que a diversidade se fica por aí.

Um bom exemplo disso é uma notícia que foi publicada há alguns dias (e ainda perdura nas redes sociais) intitulada “Portugal é o quinto na lista dos países mais corruptos”. A notícia referia-se a um estudo da consultora Ernst & Young sobre a perceção da corrupção em 38 países. Ao lê-la percebe-se claramente que é um estudo sobre a perceção dos inquiridos, mas o título remete para uma afirmação taxativa de uma métrica verificável.

Se o corpo da notícia está bem escrito, o título recorre ao estilo “tablóide” exagerando o seu conteúdo. Seria de esperar que esse título não passasse no “crivo” da chamada imprensa séria, todavia não foi assim. Uma rápida pesquisa na Internet poderá revelar pequenas variações, mas o erro do título foi mantido em quase todos os órgãos de comunicação social portugueses.
Poderemos achar que foi desatenção ou impreparação dos jornalistas que em cada um dos media editaram a notícia, ou um exemplo mais evidente do clássico “corta-e-cola” que tomou conta das redações nacionais. Pode ser tudo isso e também a dependência das fontes de agência que retira ao jornalista os alertas de desconfiança.

Em vez de analisar os factos que têm em mãos, alguns jornalistas limitam-se a copiar e repetir sem espírito crítico. “Diz-se porque alguém disse”, e quem o disse merece confiança. Quando se confia, não é preciso verificar, nem alterar.

Como numa câmara de eco, a notícias são repetidas, e se os outros medias as repetem é porque só pode ser verdade. Acontece que às vezes são “meias-verdades”, ou mesmo uma mentira que, de tantas vezes repetida, se torna verdadeira.


Publicado em Setúbal na Rede 01/07/2015

terça-feira, junho 02, 2015

Corruptos


Corrupção não é uma palavra estranha na imprensa portuguesa e, ainda que muitos de nós tenhamos uma ideia de que a dimensão desde problema é muito maior em Portugal do que noutros países do mundo, não constituiu grande surpresa a revelação dos casos de corrupção na FIFA. O futebol é um dos sectores onde a perceção de corrupção é maior, e os detidos no âmbito deste processo são, na sua maioria, latino-americanos, uma das regiões do globo que nos parece conseguir produzir ainda mais corruptos do que nós.

Falamos naturalmente de perceções. E, se substituíssemos “Portugal” por Itália, França ou mesmo Alemanha, o parágrafo anterior continuaria a fazer sentido para um leitor em cada um desses países. A preocupação com a corrupção é transversal, e todos temos consciência que ela nos afeta mais a nós, ao mesmo tempo que parece ser endémica a um determinado povo ou atividade.
A forma como alguns órgãos de comunicação social generalizam e simplificam as complexas redes de corrupção criam a perceção de que estes casos ocorrem com mais regularidade, por exemplo, no futebol do que no ciclismo; que envolvem uns clubes mais do que outros; ou são protagonizados por determinados dirigentes e não por outros. Ou seja: as perceções estabelecem fronteiras. Umas vezes são norte-sul, outras ricos e pobres, ou brancos e pretos.

Mas quem corrompe os corruptos?

Quando olhamos a corrupção, pensamos na pessoa que tem poder para tomar uma determinada decisão que pode favorecer ou prejudicar outro, mas que entende que essa posição lhe dá a vantagem de fazer-se beneficiar a si própria, em primeiro lugar. No entanto raramente pensamos na pessoa, ou entidade que, para obter vantagem sobre os outros, está disposta a pagar os favores de alguém.
O caso da FIFA é um bom exemplo. Quando foi conhecido o escândalo e divulgadas as detenções ficámos a saber os nomes dos detidos, as razões da acusação e a tipificação dos crimes envolvidos. Mas até mesmo o comunicado do Departamento de Justiça norte-americano é cauteloso ao referir o pagamento de subornos por “uma grande marca desportiva dos EUA”. Provavelmente dir-se-á que não há a certeza de que a marca em causa esteja diretamente envolvida no escândalo de suborno mas, do mesmo modo, os suspeitos apregoados são presumíveis inocentes até prova em contrário.
A diferença é que quem paga subornos são os ricos. Paga quem tem dinheiro para pagar. E quem tem dinheiro tem tudo, sobretudo quando é um grande patrocinador dos media. Nos dias seguintes, a imprensa internacional referia que “A NIKE está a colaborar com o FBI”, um eufemismo para dizer que a empresa está a ser investigada, embora não tenha sido formalmente acusada. Na verdade, até pode nem estar envolvida, mas para haver corrupção, haverá sempre alguém a corromper.
A corrupção envolve sempre que dá e quem recebe, mas no jogo das perceções, quem corrompe não parece ser denunciado. Pode valer para o caso da FIFA, como valeria para os britânicos do Freeport ou para os alemães dos submarinos, para citar apenas alguns casos mediáticos que se esfumaram no ar. O escândalo da FIFA, sendo um caso de polícia, é também polifacetado. Tem componentes geopolíticas, económicas e de lóbis de interesses regionais. Deve por isso ser acompanhado com detalhe e atenção pela comunicação social, mas o jornalista não se pode esquecer que neste, ou noutro caso de corrupção, por exemplo em autarquias ou cartas de condução, há sempre o corrupto e o corruptor.

Na corrupção perdemos todos, mas há dois que ganham: o que corrompe e o que é corrompido. Não condenemos apenas aquele que vende a alma ao Diabo, perdoando o Diabo talvez porque o negócio dele é desviar almas alheias.